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Rubens Valente

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Pesadelos e angústia: mulheres querem resposta sobre 6 desaparecidos em MT

Portão principal e pátio da fazenda Promissão, em União do Sul (MT) onde, segundo o MP e a polícia, ocorreu uma chacina de seis homens em 18 de abril de 2020 - José Medeiros / UOL
Portão principal e pátio da fazenda Promissão, em União do Sul (MT) onde, segundo o MP e a polícia, ocorreu uma chacina de seis homens em 18 de abril de 2020 Imagem: José Medeiros / UOL
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL, enviado a Sinop, Sorriso e Cuiabá (MT)

19/06/2021 04h01Atualizada em 19/06/2021 10h46

Há um ano e dois meses, só incertezas e indagações. A maioria já encara a possibilidade de seus parentes estarem mortos, mas todos querem saber o destino dos corpos. São cinco filhas e cinco mães atrás de informações.

Seis homens estão desaparecidos em União do Sul (MT) desde 18 de abril de 2020 depois que o fazendeiro Agenor Pelissa chamou a Polícia Militar para dar segurança sobre um suposto plano de assalto a uma fazenda. Sobre dois deles — Paulo Gustavo e Arcelino — a polícia e o MP não sabem como se encaixam na história do plano. Os relatos a seguir são de familiares que ainda esperam notícias das autoridades que desvendem o paradeiro dos parentes.

Paulo Gustavo de Lima Lopes, 25

Devota de São José e de Nossa Senhora, A. não perdeu a esperança de reencontrar seu filho, embora reconheça que as chances são pequenas. Às vezes fala dele no passado, mas corrige para o presente.

"Eu sempre falo com Deus, que eu gostaria muito de ter uma resposta. Mas, ao mesmo tempo, eu fico com medo de receber a resposta, de qual é a resposta. Mesmo assim, é um direito [saber o destino do desaparecido], se alguém sabe alguma coisa, mas que seja verídico."

Na delegacia, ela reconheceu como sendo de seu filho uma camiseta com o nome de um lava-jato que ele havia ganhado cerca de dois anos atrás e foi encontrada pela polícia na fazenda em União do Sul.

A última conversa entre mãe e filho ocorreu poucos dias antes do desaparecimento.

Fotografia de Paulo Gustavo Lopes, um dos seis desaparecidos em União do Sul (MT) - José Medeiros - José Medeiros
Fotografia de Paulo Gustavo Lopes, um dos seis desaparecidos em União do Sul (MT)
Imagem: José Medeiros

"Ele falou pra mim que estava indo para uma fazenda, que iria trabalhar. Mas que iria passar aqui [na casa dela]. Como tinha começado a [pandemia] de covid-19, eu ainda falei para ele 'só que não vai ter abraço, né, você vive aí num monte de gente' - porque ele era o filho mais carinhoso meu. 'Só que não vai ter abraço'. Ele falou 'tá bom então'. Eu disse 'estou te esperando então'. Era umas duas e pouco. E até hoje [nada]."

Paulo Gustavo nasceu em Guarantã do Norte (MT). Quando tinha dois anos de idade, seu pai deixou a sua mãe. Foi criado por A. e seu segundo marido. Torcia para o Corinthians, gostava de ouvir "essas músicas doidas", segundo a mãe, e era católico. Estudou até a 8ª série. Foi nessa época, na escola, que os problemas com droga começaram.

"Ele era um filho maravilhoso — é um filho maravilhoso —, só que depois se envolveu com drogas. Quando eu soube, meu Deus do céu, eu perdi o chão."

Ele começou a aparecer sujo em casa, muitas vezes dormiu na rua. Aos 18 anos iniciou um relacionamento com uma jovem e tiveram uma criança que hoje é criada por A. Passou a viver de bicos.

Apesar dos problemas, Paulo Gustavo nunca foi preso ou condenado, o que é confirmado pela polícia.

"O que tenho para dizer é que sinto muita saudade dele e gostaria de ter uma resposta do seu paradeiro. Se alguém viu ele ou sabe o que aconteceu. Que a saudade é grande, só a mãe que tem um filho desaparecido sabe da dor. Ninguém pode nem imaginar nem sentir a dor de ninguém. É uma dor que você não explica, você apenas sente e não tem como outro saber."

Arcelino Martins de Oliveira, 36

Ele trabalhava com outro irmão na propriedade do pai, em Sorriso (MT), "tirando lascas de madeira, fazendo cerca". A família veio há muitos anos de Rondônia, onde Arcelino nasceu em 1983. Há sete anos, conheceu em Sorriso a assistente social E.. Passaram a viver juntos. Tiveram uma filha, hoje com 5 anos. Pai e filha eram "muito agarrados", diz a mãe.

Parente segura a fotografia de Arcelino Martins de Oliveira, em Sorriso (MT) - José Medeiros - José Medeiros
Parente segura a fotografia de Arcelino Martins de Oliveira, em Sorriso (MT)
Imagem: José Medeiros

Tão agarrados que E. não contou até agora sobre a morte do pai, "justamente porque eu tinha a esperança de pelo menos encontrar o corpo." Até hoje a menina pergunta à mãe "e meu pai, que dia que ele chega?'".

Na quinta-feira, 16 de abril de 2020, ele disse a E. que iria viajar para um trabalho em Sinop (MT) na sua moto XRE e voltaria no sábado, dia 18. Na data combinada, porém, não retornou. Nos dias seguintes, uma família de outro desaparecido postou em rede social que tinha ocorrido um tiroteio numa fazenda e que havia pessoas sumidas. E. passou a achar que poderia haver uma ligação.

A família foi uma delegacia para denunciar o desaparecimento. Dias depois, a Polícia Civil mostrou fotografias de objetos encontrados na fazenda Promissão, que fica a mais de 250 km de Sorriso. "Eu reconheci a mochila e a muda de roupa, uma camiseta. Não tinha corpo, não tinha nada, até hoje não tem, na verdade."

Meses depois, em setembro, E. recebeu pelos Correios uma notificação do Detran. A moto do marido fora encontrada à beira de uma rodovia a poucos quilômetros da fazenda Promissão.

E. disse que não tem ideia de nenhuma relação de Arcelino com os outros cinco desaparecidos. Há cerca de dois anos, ele ficou preso por cerca de oito meses. Segundo a polícia, foi uma acusação de furto, mas não relacionado a propriedades rurais.

"Até hoje a gente vive assim um luto sem saber se está vivendo aquele luto mesmo ou não. Os pais [de Arcelino] se preocupam bastante porque a vontade deles é ter o corpo, pelo menos, do filho, o que a gente sempre queria, e quer. Eu espero justiça. [...] Ou eles entregam o corpo ou falam onde está. É isso que a gente quer. É importante para poder enterrar pelo menos com dignidade. Melhor para a gente, pelo menos, ter o corpo. É ruim conviver desse jeito. A gente vive nessa angústia."

Weberson Corrêa da Silva, 31, o Seco

Dois meses depois dos eventos na fazenda Promissão, a sogra de Weberson escreveu em sua agenda que ele "apareceu" para ela numa visão. Vestia uma camisa azul que levou quando saiu de casa, em Sinop, em abril de 2020.

"Ele estava num tablado. E ele mostrava para o lado do rio. E do lado direito tinha um canavial. Era tipo um açude. Mas tinha uma ponte também. Minha filha também conta que sonhou com esse mesmo episódio. Ele mostrava para ela que 'os homens estavam queimando'. Estava com um cheiro de queimado, e apontava para o lado do rio. Mas a gente não sabe explicar o que é realmente. Mas às vezes a espiritualidade está mostrando e a gente não está sabendo entender. Eu acredito na vida após a morte", disse A.

Espírita, ela crê que "enquanto não achar o corpo dele, a alma dele não vai descansar".

Weberson Corrêa da Silva, apelidado de Seco, desaparecido em União do Sul (MT) - José Medeiros/UOL - José Medeiros/UOL
Weberson Corrêa da Silva, apelidado de Seco, desaparecido em União do Sul (MT)
Imagem: José Medeiros/UOL

Weberson era conhecido como Seco não porque era magro, mas pelo estilo fechado. Muitos achavam que isso se explicava pela sua vida difícil desde criança. Aos 17 anos, Weberson perdeu a mãe durante uma cirurgia. Ela era garota de programa e o menino foi criado com dificuldade "pelas mãos dos outros". Não conheceu o pai. Há sete anos, ele e V. se conheceram e foram morar juntos. Tiveram uma filha, agora prestes a completar 5 anos.

Era torcedor do Palmeiras, mas não fanático. Era fã mesmo de Jorge & Matheus, dupla sertaneja que não para de tocar nas rádios do Nortão de Mato Grosso. E gostava de jogar bola.

Em 18 de abril de 2020, saiu de casa dizendo "que iria resolver umas coisas e voltaria no dia seguinte". Por volta das 18h, a menina pediu à mãe que mandasse um áudio por telefone para o pai, dizendo que "ô, papai, estou com saudade, que horas você vem para casa, te amo". Uma hora depois, "ele respondeu que amava ela, que logo voltaria para casa", disse V. Foi o último contato com a família.

Dias depois, a Polícia Civil mostrou fotografias de objetos encontrados na fazenda e a família reconheceu uma mala roxa, uma camiseta cinza com a marca Adidas na cor amarela, uma camisa azul, um calção jeans preto, outra camiseta cinza e também uma camisa azul clara com mangas longas. Também viram o celular dele, "ensanguentado, com a tela trincada".

O desaparecimento provocou um trauma na menina, segundo a mãe. Antes expansiva e alegre, agora está mais calada e irritadiça. Ambas passam por atendimento psicológico desde então.

"Tem dia que a menina acorda falando no pai. Pergunta para a mãe: 'Onde está papai'. A gente explica, 'ah, está em outra dimensão'. Às vezes ela pergunta, 'ele está trabalhando lá?' Não dá pra falar ainda [o que houve], é muito pequena para entender."

V. tem uma explicação para as "visões" que os familiares têm de Weberson. "A psicóloga — eu também estou indo — fala que é um trauma, a gente sonha por causa do trauma. A nossa cabeça fica tentando resolver o que aconteceu com a pessoa, porque fica a dúvida. A gente não sabe se ele sofreu para morrer. Que forma ele morreu. Se ele morreu na hora, se morreu depois, se torturaram ele. A gente não sabe. Não sabe se queimaram os corpos, se esquartejaram, o que diacho que fizeram. A gente acaba sonhando por causa disso, porque fica um trauma na cabeça."

A polícia acredita que Seco tinha ligação com um grupo que praticava furtos e roubos em propriedades rurais da região, mas os seus familiares afirmaram desconhecer qualquer ligação dele com crimes. De qualquer forma, diz a família, se ele estava prestes a cometer um ilícito deveria ter sido preso e processado na forma da lei.

Francisco Wanderson Soares de Lima, 23, o Nem

Nascido no Maranhão, ainda adolescente foi morar com o tio no Nortão de Mato Grosso. Era sobrinho de Francisco Diego Costa Lima, o Capivara, um dos quatro sobreviventes da chacina. Foi o tio que o convidou para ir à fazenda para um suposto plano de roubo de soja.

Nem conviveu quase seis anos com R., a quem conheceu por intermédio de um parente. Tinham algumas desavenças, mas não coisa séria. A última separação foi em janeiro, mas R. acreditava que ainda iriam reatar.

Parente segura celular com foto de Francisco Wanderson Soares de Lima, o Nem, um dos seis desaparecidos na fazenda Promissão, em União do Sul (MT) - José Medeiros - José Medeiros
Parente segura celular com foto de Francisco Wanderson Soares de Lima, o Nem, um dos seis desaparecidos na fazenda Promissão, em União do Sul (MT)
Imagem: José Medeiros

"A gente não consegue entender por que ele foi fazer isso [atender ao convite do tio]. Ele sempre trabalhou em silo, com secagem de grãos", disse R.

Quando a polícia apresentou pertences encontrados na fazenda, R. reconheceu como sendo de seu ex-companheiro "uma mochila preta, um perfume Malbec e um desodorante Rexona".

R. disse que ficou "desesperada", pois ainda gostava de Nem. Disse que ficou tão "desnorteada" que faltou ao trabalho de garçonete por dois dias e perdeu o emprego.

A ex-companheira acha que são pequenas as chances de encontrá-lo vivo. "Eu, para ser bem sincera, não tenho muita esperança não. Porque já tem um ano e pouco, não tem como. Tinha muito sangue, muita bala [na fazenda]."

Desde que Nem desapareceu, R. evita entrar na casa que havia dividido com o companheiro e prefere morar com parentes.

"Não consegui entrar mais na casa depois. Eu não consigo, as memórias. Não sei dizer ao certo [o motivo], só não consigo entrar na casa. Eu fico agoniada, não sei explicar ao certo o que acontece, eu não me sinto bem entrando lá."

Nicolas Jordane Pereira, 26, o Nick

Na madrugada anterior ao seu desaparecimento, Nick disse à mulher ter tido uma premonição em sua casa, em Cuiabá (MT). "Ele acordou de madrugada e falou 'Ó, tive um pesadelo e eu sonhei que tinham dado um monte de tiro no meu corpo e eu saí correndo.' Ele acordou desesperado, estava até tremendo. Eu falei que era um sonho, que pode ser o contrário. Ele voltou a dormir", disse A., que hoje tem 26 anos.

Parente segura telefone com a fotografia de Nicolas Jordane Pereira, conhecido como Nick, em Cuiabá (MT) - José Medeiros - José Medeiros
Parente segura telefone com a fotografia de Nicolas Jordane Pereira, conhecido como Nick, em Cuiabá (MT)
Imagem: José Medeiros

Na manhã do sábado, dia 18, às 9h, ele levou A. até a casa de sua mãe, pegou uma mala de roupa e saiu dirigindo o Fiat Strada que tinha acabado de comprar. Disse que iria fazer um serviço em União do Sul, mas estaria de volta no domingo [19] de manhã.

O Strada foi achado abandonado pela polícia no pátio da fazenda Promissão. Semanas depois, a polícia apresentou fotografias de objetos achados na propriedade e A. disse que reconheceu "tudo dele, um boné meio marrom, o carro, a roupa dele, a camiseta, calça, botina, documento dele".

Com essas evidências mais a ausência de contatos de Nick há mais de um ano, A. diz não ter mais esperanças de encontrá-lo vivo. Principalmente porque ele não procurou contato com ela e com a filha do casal, de 4 anos, a quem era muito apegado.

"No começo ela chorava todos os dias perguntando dele, queria ver um vídeo dele, querendo saber onde o pai dela estava. Mas o que a gente vai falar? Não tem o que falar. A gente não sabe realmente o que aconteceu."

O casal se conheceu em 2016, apresentado por um amigo em comum. Nos primeiros anos, Nick procurou se ajustar em vários serviços, segundo A. Trabalhou com uma pá carregadeira no sítio dos pais, em Rosário. Depois montaram um pequeno mercado, mas não deu certo.

Chegou a trabalhar como motorista de caminhão, mas mudou de ideia. Voltaram para Cuiabá, e os problemas no relacionamento ficaram mais frequentes. Nick demonstrava vontade de melhorar financeiramente de vida, olhava para seus amigos "com carrão, com casa boa" e fazia comentários para a mulher.

Nick tinha pelo menos um episódio violento no passado. Há poucos anos, foi acusado de matar um homem com um tiro durante uma discussão numa boate em Rosário d'Oeste (MT). Ele disse para A. que foi em legítima defesa. A Polícia Civil diz que Nick já era investigado por supostas ligações com roubos em fazendas da região. A. disse que nunca ouviu nada sobre isso.

Nos últimos tempos, o casal enfrentava problemas no relacionamento, mas a filha em comum falava mais alto. "Ele é o pai da minha filha. Querendo ou não, a gente viveu dois anos juntos, tranquilos. Depois desse período [em Rosário] é que foi desandando."

"A gente quer seguir em frente, está muito difícil. A gente não sabe de nada, a gente quer uma resposta, porque está complicado pra gente seguir em frente. A minha filha é uma criança que pergunta do pai todos os dias. Então o que a gente vai falar para uma criança? A gente quer saber o que aconteceu, qual foi o real motivo, qual é a real história, onde ele está. Para a gente seguir em frente, é o essencial."

Francisco Barbosa de Miranda da Conceição, 26, o Naldinho

Francisco Barbosa de Miranda da Conceição, 26, apelidado de "Naldinho" - Reprodução Facebook - Reprodução Facebook
Francisco Barbosa de Miranda da Conceição, 26, apelidado de "Naldinho"
Imagem: Reprodução Facebook

Dos seis desaparecidos em União do Sul (MT), a família de Naldinho foi a única que o UOL não conseguiu localizar. Ele era funcionário da fazenda Promissão e, segundo o depoimento de outro empregado na propriedade, foi encapuzado e amarrado na manhã do dia 18 de abril de 2020 por dois homens que também usavam capuzes e estavam vestidos de preto. Desde então, Naldinho não foi mais visto e a polícia e o MP afirmam que ele também foi assassinado. Segundo relatório da polícia, o telefone celular de Naldinho "foi encontrado na cena do crime, contendo conversas do mesmo com outros integrantes que realizariam o furto".