Topo
REPORTAGEM

Ao atacar o Iphan em 2019, Hang disse que servidores 'destroem o Brasil'

Rubens Valente

Colunista do UOL

18/12/2021 20h39

Em uma série de vídeos divulgados em redes sociais em meados de 2019, o empresário Luciano Hang, da cadeia de lojas Havan, atacou servidores do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e acusou servidores públicos de "trabalharem pouco" e "destruírem o Brasil". Os vídeos foram divulgados depois que a obra de construção de uma loja Havan no município de Rio Grande (RS) foi suspensa a partir da localização de 20 fragmentos de cerâmica indígena e louças do século 19, conforme o UOL revelou neste sábado (18).

Na última quarta-feira (15), durante um discurso para empresários da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o presidente Jair Bolsonaro disse que "ripou" [cortou] funcionários do Iphan por terem apontado os problemas na obra de Hang.

Quatro vídeos com as reclamações de Hang foram baixados da internet pelo MPF (Ministério Público Federal) e integram um inquérito civil aberto pelo órgão no Rio Grande do Sul após um cidadão ter procurado o MPF para pedir providências sobre a obra que ocorria num local "de alto potencial arqueológico".

Cinco meses depois da paralisação da obra, em dezembro de 2019 a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, foi exonerada do cargo. Na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, Bolsonaro já havia associado a saída de Bogéa à obra de Hang. Em maio de 2020, Kátia Bogéa confirmou que foi substituída após as pressões de Hang.

Logo depois das reclamações de Hang, a construção foi retomada com autorização do Iphan. A loja em Rio Grande foi inaugurada em julho passado.

Num dos vídeos gravados na época da paralisação, durante uma entrevista no aeroporto da cidade Hang culpou servidores públicos por supostamente "destruírem" o país.

"Então eu vim aqui [Rio Grande] para realmente ver o que está acontecendo. Nós temos pressa. Lamentavelmente as pessoas que trabalham no governo não têm pressa nenhuma com o cidadão. Nós, da iniciativa privada, nós visamos sempre atender bem o nosso cliente. Quem é o cliente do governo? Somos nós. Eles ganham dinheiro dos nossos impostos, da iniciativa privada, do cidadão. Agora, não têm pressa nenhuma. Se precisar demorar mais 15 dias, mais 30 dias, mais um mês, estão empregado [sic], ganhando muito, trabalham pouco, se aposentam cedo e destroem o Brasil. É esse... a realidade brasileira tem que falar a verdade, botar o dedo na ferida senão esse país não vai nunca encontrar o caminho do desenvolvimento", disse Hang.

Em outro vídeo, Hang disse que no dia seguinte estaria em Rio Grande para saber sobre a paralisação da obra. Ele atacou os servidores públicos do Iphan, dizendo que eles ficam com "pernas esticadas" para cima, com "dinheiro no bolso" e "praia".

"Amanhã eu vou estar lá na cidade do Rio Grande. Sabe por que está parado lá? Porque eles encontraram os fragmentos de uma tigela que pode ser de repente de um índio. Pára a obra. Quanto tempo? Não sei, tá lá parada. Eu queria inaugurar essa obra em Rio Grande no final desse ano. Já compramo a obra, terreno, amanhã vou estar lá. Aí o pessoal do Iphan lá sentado, esticado as pernas pra cima [estica a perna], 'vamo pra praia, tranquilo', final do mês o dinheiro no bolso, e você desempregado. Você precisa de dinheiro, você precisa de educação, de saúde, de segurança. Esse país tá virado de cabeça pra baixo."

Em um terceiro vídeo, Hang apresentou fotografias dos pedaços de cerâmica encontrados no terreno de sua obra. Ele disse que "até pode ser de um índio", mas ironizou citando uma loja de cerâmicas de Santa Catarina.

"Estou aqui em Rio Grande, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Aqui um terreno de 30 mil metros quadrados que a gente comprou pra fazer mais uma megaloja Havan e queremos inaugurar até novembro. Mas há 15 dias passado [sic], o Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico, veio aqui e encontrou fragmentos como esse na obra. Olha só os fragmentos [mostra fotos] que encontrou na obra. Eu não sei se é louça portuguesa, se é louça lá da [empresa] Oxford de Santa Catarina ou de repente alguém que morava aqui. Até de repente pode ser de um índio. Até pode ser. Agora parar uma obra, funcionários aqui parados e nós não soubemos quando vamos começar é um absurdo!"

Segundo Hang, "de novo a burocracia sentado [sic] em cima do cidadão, sentado em cima da geração de emprego. Quem está desempregado tem pressa pra arranjar um emprego e aí agora só Deus sabe quando é que eles vão liberar a obra. Esse Brasil não tem jeito, vamos mudar. Vamos arranjar emprego para os brasileiros. Quem está desempregado tem pressa. Vamos mudar o Brasil e você pode ajudar, acabar com a burocracia".

Presidente de associação diz que servidores fazem 'o oposto da destruição'

Em outro vídeo, Hang disse que "é a burocracia que atrapalha esse nosso país. Não é falta de empreendedor, é falta de vontade do poder público". Ao lado de dois homens, um dos quais se identificou como empresário, Hang disse que "o Rio Grande do Sul é vítima" do que chamou de "aparelhamento".

"O Rio Grande do Sul é vítima hoje. É um Estado com problemas financeiros, porque ele é vítima desse aparelhamento que houve no Estado. E vocês aqui foram um dos mais prejudicados no Brasil. Se alastrou o funcionalismo de uma maneira dentro do Estado brasileiro, principalmente no Rio Grande do Sul, é como pé de borracha, já viram pé de borracha. Ele entranha e consegue entrar até dentro de um cano de plástico. Aqui está assim, tudo você precisa pedir autorização para alguém. Olha só o terreno lindo, nós aqui parados, discutindo... E quanto mais agora?"

A pedido da coluna, o presidente da Anesp (Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental), Pedro Pontual, assistiu aos vídeos de Hang e disse que, "assim como o cidadão cumpre a legislação ao pagar seus impostos, o servidor público também é obrigado a seguir a legislação".

"No Brasil, assim como em inúmeras outras sociedades ao redor do mundo, existe uma política pública que valoriza o patrimônio histórico. É dever do servidor público cumprir essa legislação. A missão do Iphan neste caso é a preservação de patrimônio nacional, justamente o oposto de destruição. Mas seria importante saber se o Iphan tem um orçamento adequado e servidores em quantidade suficiente para atender à demanda."

Hang disse que 'botou a boca no trombone'

Em nota divulgada em agosto de 2019 e depois atualizada em setembro, o Iphan explicou que tecnicamente não chegou a embargar a obra de Luciano Hang, mas sim que ela foi suspensa pela própria empresa responsável pela construção. A empresa havia se comprometido junto ao Iphan a seguir uma instrução normativa de 2015 que previa a imediata paralisação das obras em caso de localização de objetos de interesse arqueológico, e foi o que aconteceu.

Na quinta-feira (16), Luciano Hang divulgou uma nota em suas redes sociais na qual afirmou que os objetos encontrados "não eram artefatos históricos".

"Eu nunca pedi nenhum favor pessoal ao presidente Bolsonaro ou a qualquer outro político. Uma das minhas principais lutas é o fim das burocracias e leis burras que desestimulam quem quer investir e gerar emprego no Brasil. Se para mim é difícil, imagine para pequenos empreendedores."

Na rede social Twitter, Hang afirmou que a questão da sua loja era "notícia velha e requentada" e que ele protestou contra a paralisação da obra em 2019. "Só não foi mais tempo [parada] porque coloquei a 'boca no trombone', como sempre faço com esses absurdos. Temos 168 lojas, não fazem ideia das asneiras que já presenciei. Leis sem pé nem cabeça, tudo precisa de um carimbo, um alvará, uma licença... um verdadeiro calvário".

Comunicar erro

Comunique à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Ao atacar o Iphan em 2019, Hang disse que servidores 'destroem o Brasil' - UOL

Obs: Link e título da página são enviados automaticamente ao UOL


Rubens Valente