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REPORTAGEM

Os dilemas financeiros do PL na hora de bancar a candidatura de Bolsonaro

Valdemar da Costa Neto e Bolsonaro (ambos no centro) durante filiação do presidente ao PL Imagem: Divulgação/PL
Rubens Valente

Colunista do UOL

23/01/2022 04h00

A campanha eleitoral de 2022 deverá ser a mais cara da história do país, com R$ 4,9 bilhões ou R$ 5,7 bilhões - o valor ainda está sendo definido - de dinheiro público carreado por parlamentares para as suas próprias campanhas só no Fundo Eleitoral. Na divisão do bolo, o PL de Valdemar da Costa Neto, partido pelo qual o presidente Jair Bolsonaro (RJ) tentará sua reeleição, deverá amealhar cerca de R$ 341 milhões, que é nada menos do que o triplo recebido na campanha de 2018 (R$ 113,6 milhões).

Além do Fundo Eleitoral, o PL deverá receber neste ano mais de R$ 40 milhões do Fundo Partidário, outra fonte pública de recursos que também pode ser usada em campanha eleitoral. Tudo somado, parece muito dinheiro para um partido que sempre apareceu como coadjuvante nas disputas presidenciais - e, sem dúvida, é. Mas o PL também não será o mesmo em 2022, e o dilema à frente do comandante da sigla, o ex-deputado federal Valdemar da Costa Neto (SP), é evitar que as dores do crescimento derivem para crises dentro do partido.

Um ponto fundamental nas projeções dos gastos é que as finanças PL serão impactadas por um movimento político importante que ocorrerá de 3 de março a 1º de abril, a chamada "janela partidária". Nesse período, os parlamentares que ocupam cadeiras no Congresso Nacional podem mudar de sigla sem risco de perder o mandato. Espera-se então um efeito manada do PSL, o partido pelo qual Bolsonaro foi eleito e onde se encontram dezenas de seus seguidores, para dentro do PL.

As previsões oscilam de 25 a 33 novos parlamentares no PL a partir de abril. O partido já tem 43 deputados federais (é a terceira maior bancada no Congresso, atrás apenas do PSL, com 55, e do PT, com 53). Com isso, o número de deputados do PL que precisarão de recursos para suas campanhas eleitorais passará de 43 para 68 ou 76. O problema é que o cálculo, previsto em lei, para distribuição aos partidos dos recursos dos dois Fundos de financiamento permanecerá o mesmo que valeu para a campanha de 2018. A distribuição interna feita pelo partido deve ser equânime entre todas as campanhas dos deputados candidatos à reeleição.

Em 2018, o PL destinou R$ 2 milhões para cada um dos 34 deputados federais que concorreu naquele pleito pela sigla (acabou elegendo uma bancada de 33, que evoluiu para 43 ao longo da legislatura). Assim, espera-se uma pressão natural dos parlamentares que tentam a reeleição para que o valor seja repetido ou aumentado. Caso isso aconteça, só as campanhas dos parlamentares vão abocanhar de R$ 136 milhões a R$ 152 milhões. Isso representaria um expressivo pedaço dos R$ 380 milhões previstos para 2022. Haverá ainda a demanda dos candidatos que tentarão um primeiro mandato.

As campanhas dos parlamentares são apenas uma parte dos gastos do PL em 2022. Valdemar precisa dar a estrutura esperada à campanha de Jair Bolsonaro - e sobre isso deverá ser cobrado enfaticamente pelo senador Flávio Bolsonaro (RJ), os olhos e ouvidos do presidente dentro do PL. Hoje Valdemar controla as finanças do partido com mão-de-ferro. As pessoas que ocupam a estrutura administrativa do partido não conseguem dar um passo sem antes consultá-lo. Mas dificilmente conseguirá resistir às cobranças do clã Bolsonaro e de outros políticos bolsonaristas.

Ao contrário de 2018, quando Bolsonaro declarou meros R$ 2,8 milhões de gastos eleitorais, a campanha presidencial bolsonarista deste ano deverá ser bem mais cara. Até porque o partido deve ressarcir a União por eventuais deslocamentos do presidente em aeronaves, hospedagem em hotéis e gastos com segurança, entre outras despesas que nas últimas eleições não ocorreram.

Além disso, Bolsonaro aparece mal nas pesquisas eleitorais, indicando a necessidade de mais gastos na tentativa de turbinar a candidatura. Outra diferença é que durante boa parte da campanha de 2018 Bolsonaro passou em atendimento hospitalar após o atentado de 6 de setembro daquele ano; com isso, houve menos gastos de deslocamento.

"O PL terá uma grande campanha a presidente, nunca houve nisso na história do partido. Só para essa campanha será destinado um super pedaço da receita. E o presidente precisa ter candidato forte a governador nos maiores Estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. Terá que lançar também candidatos fortes ao Senado em vários Estados. E tem as campanhas dos deputados federais. É muita gente para o mesmo dinheiro", disse um político com grande conhecimento sobre a gestão do PL, que pediu para não ter o nome publicado por temer retaliações.

Duas das campanhas estaduais que o PL deverá apoiar com mais ênfase é a do senador Jorginho Mello ao governo de Santa Catarina e a do governador Cláudio Castro à reeleição no Rio de Janeiro, ambos já filiados ao PL. Mas o clã Bolsonaro deverá demandar palanques fortes em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, e por aí afora.

Nesse cenário com muitas bocas para alimentar, não é afastada a hipótese de o PL reduzir a cota dos R$ 2 milhões de 2018 para a candidatura de cada parlamentar, o que provocaria muita reclamação na bancada eleita. Além disso, com uma inflação acumulada no país de 18,8% de 2019 a 2021, as campanhas de 2022 deverão ser bem mais caras que as de 2018.

Os futuros novos deputados do PL, egressos do PSL, poderão sentir menos que os do PL o encolhimento dos gastos. A disparidade tende a gerar um ponto de atrito nas apertadas disputas eleitorais nos Estados.

"Diferentemente dos deputados do PSL, os deputados do PL não usam muito a internet para suas campanhas, dependem mais das estratégias tradicionais. Os bolsonaristas não, eles já vêm com suas estruturas de internet. Então os deputados do PL correm algum risco, podem perder espaço, e isso poderá gerar alguns conflitos dentro da legenda", observou o político ouvido pela coluna.

Uma saída possível para vitaminar as finanças do PL seria uma campanha de arrecadação de doações de pessoas físicas. Considerando a campanha passada, porém, não se deve esperar muita coisa. Com todo o empenho dos centenas ou milhares de bolsonaristas voluntários e conectados em redes sociais naquele momento, a campanha de 2018 arrecadou apenas R$ 2,8 milhões.

"É muito difícil que ocorra uma grande arrecadação de doações de pessoa física. As pessoas ficam estigmatizadas, marcadas, por isso não gostam de doar como pessoa física", disse o político. Além disso, há limites legais para os valores das doações pessoais.

A coluna procurou ouvir Valdemar Costa Neto nesta sexta-feira (21) sobre as contas do PL, mas ele informou, por meio da assessoria da sigla, que não tem concedido entrevistas aos meios de comunicação. A coluna então encaminhou uma série de perguntas sobre os preparativos do partido para as eleições de 2022. Não houve resposta até o fechamento deste texto.

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