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Centrão quer vagas de ministros para apoiar governo, mas Bolsonaro resiste

Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre no comando do Congresso são fruto do poder do Centrão - Pedro Ladeira - Folhapress
Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre no comando do Congresso são fruto do poder do Centrão Imagem: Pedro Ladeira - Folhapress
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

22/11/2019 12h46

Com o racha no PSL, o governo Bolsonaro, que só tinha uma sigla na sua base de apoio no Congresso, passou a ter somente meio partido. Assim mesmo, de maneira informal.

Agora que não tem nenhum partido oficialmente o presidente da República está mais ainda refém das legendas que controlam o Congresso. Em outras palavras, do chamado Centrão.

Originalmente esse bloco incluía o PP, o PL, o SD e uma série de pequenos partidos. Mas, desde que ajudou a eleger Rodrigo Maia como presidente da Câmara, o DEM, o MDB e o PRB (hoje Republicanos) se aproximaram do Centrão.

O grupo se tornou hegemônico no Congresso. Quando pende para a esquerda, junta-se aos partidos de oposição e derrota o governo. Se tende a concordar com alguma proposta do Planalto, junta-se aos governistas dispersos em diversos partidos e derrotam a esquerda.

Foi essa força que reelegeu Rodrigo Maia para o comando da Câmara e fez outro demista, Davi Alcolumbre (AP), assumir a presidência do Senado.

O poder do Centrão também elevou o senador Fernando Bezerra (MDB-PE) a líder do governo no Senado, e seu colega de partido, o senador Eduardo Gomes (TO) a líder do governo no Congresso.

Com Bolsonaro perdendo o PSL, o Centrão agora cobra maior poder de decisão no governo para garantir a aprovação de projetos de interesse do Planalto.

O principal foco do grupo é a Casa Civil, ocupada pelo ministro Onyx Lorenzoni. Isso daria ao Centrão uma pasta no Panalto com poder de influenciar diretamente o presidente na distribuição de cargos e verbas do governo.

Os aliados de Onyx no governo também estão na mira do Centrão, especialmente o ministro da Educação, Abraham Weintraub. Trata-se da segunda pasta com mais verbas da Esplanada.

Assim como o ministro da Cidadania, Osmar Terra, gaúcho como Onyx, cuja pasta gere os recursos do Bolsa Família.

O Centrão -pela voz de Davi Alcolumbre- também pressiona pela vaga do ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque.

Nos planos do bloco a pressão será aumentada neste segundo semestre, até o presidente notar que terá sérias dificuldades para aprovar seus projetos no Congresso sem promover as mudanças na Esplanada.

Bolsonaro resiste.

Embora admita que Onyx e o general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, não conseguiram formar uma base de apoio no Congresso, ele acredita que, se ceder, perderá o comando do governo.

Tudo o que Bolsonaro menos gosta é de se sentir tutelado. Desde que assumiu, sua principal preocupação foi demonstrar que não seria comandado pelo generais, como se especulava, e nem mesmo pelos dois ministros mais fortes de seu governo: Paulo Guedes (Economia) e Sérgio Moro (Justiça).

A queda de braço com o Centrão, portanto, deve se estender por algum tempo.

Na expectativa da cúpula do Congresso, no máximo até o final do ano. Na expectativa do Planalto, enquanto Bolsonaro permanecer no governo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL