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Teich ainda tenta se manter no governo, apesar de toda humilhação

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

14/05/2020 15h19

O que leva um ministro a insistir em se manter no cargo, não pedir demissão, quando seu chefe o expõe a humilhações públicas?

No caso do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta eu sei responder mais ou menos.

Ele aguentou alguns meses de agressões públicas do presidente Jair Bolsonaro com a seguinte explicação para seus interlocutores próximos:

"Estou no meio de uma guerra contra a pandemia do coronavírus. Isso é mais importante do que os muxoxos do presidente."

Eu disse que sei mais ou menos, porque pode não ser bem assim. Mandetta pode ter aguentado para não se deixar sair menor do que entrou.

Estava evidentemente ao lado da razão. E quanto mais tempo passasse em guerra contra o obscurantismo, maior ficaria diante das pessoas de bom senso.

Enfrentou abertamente o presidente Bolsonaro. E cresceu com a crise.

Nesta quarta-feira - mesmo já tendo passado um bom tempo que deixou o cargo - Mandetta estava dando entrevistas e sendo elogiado por órgãos da mídia mundial. Normalmente, ex-ministros sem cargos públicos desaparecem da mídia.

No mesmo dia Bolsonaro continuava sendo tratado como uma ameaça à saúde pública internacional.

Abriu guerra com o substituto de Mandetta, simplesmente porque o novo ministro declarou não haver comprovação científica para a eficácia da cloroquina no combate ao coronavírus.

É aí, no caso de Nelson Teich, que fica mais difícil responder, quando repito a pergunta que havia feito lá no início:

O que leva um ministro a insistir em se manter no cargo, não pedir demissão, quando seu chefe o expõe a humilhações públicas?

No caso de Teich, não deve ser por dinheiro. Ele é um médico de renome, que cobra caro por suas consultas a uma clientela repleta de celebridades e executivos endinheirados.

Não precisa do cargo de ministro para ganhar mais.

Também não deve ser para conquistar mais respeito entre seus pares. Afinal, não está conseguindo fazer um bom trabalho, tendo, por trás de si, o próprio presidente da República a atrapalhar.

Vaidade? Que vaidade há em ser surpreendido numa entrevista coletiva de imprensa - como ocorreu com ele - por um decreto presidencial que contraria as recomendações de seu Ministério para que as pessoas evitem sair às ruas?

Que vaidade há em o presidente anunciar publicamente que vai convocar o ministro ao Palácio para repreendê-lo, mandar que se cale e que abra mão de tudo o que a ciência médica lhe ensinou.

Que vaidade pode haver em ser espicaçado pelo chefe publicamente?

Desculpe, não consigo explicar.

Manter-se no poder a qualquer custo?

É... Esse negócio de poder deve ter atrativos que, nós, meros mortais, desconhecemos.