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Facebook, fake news e coronavírus: bolsonaristas estão em inferno astral

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

09/07/2020 15h06

O clima não está nada bom entre os bolsonaristas de raiz.

O Facebook e o Instagram resolveram banir perfis e conteúdos ligados ao grupo, ora falsos, ora anônimos, ora verdadeiros. O argumento é de que serviam para espalhar notícias falsas, propagar ódio e defender teses contrárias à saúde pública.

Entre esses perfis estaria até o de um assessor especial da Presidência, Tercio Arnaud Tomaz, que integraria o chamado "Gabinete do ódio" e é ligado ao filho Zero Dois do presidente, Carlos Bolsonaro.

Como se diz lá no interior, é confusão pra mais de metro. Como se não bastasse o próprio presidente Jair Bolsonaro ter anunciado que está infectado pelo coronavírus. Está cumprindo quarentena no Alvorada e tendo que fazer reuniões por videoconferência com seus ministros.

E ainda tendo que explicar por que os funcionários do Planalto não estão sendo autorizados ao trabalho home office, especialmente aqueles que tiveram contato com infectados, como ele próprio.

Ex-atleta, o presidente pode ter sofrido uma baixa imunológica que propiciou o ataque do vírus. Afinal, ele vinha com o humor nitidamente abalado desde que Fabrício Queiroz foi encontrado homiziado na casa Frederico Wassef, advogado do filho Zero um, o senador Flávio Bolsonaro, e do próprio presidente.

A prisão trouxe à tona novamente o inquérito das rachadinhas, em que Flavio tem sido apontado como chefe de um esquema de lavagem de dinheiro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Desde então, eu mesmo já disse aqui, os bolsonaristas já vinham pisando no freio.

O guru do grupo, Olavo de Carvalho, passou a reclamar com mais força dos generais que cercam o presidente, que têm defendido uma postura menos belicosa e sem tantos ressentimentos ideológicos.

Os bolsonaristas de raiz culpam os militares pela demissão de um dos principais ministros do grupo, Abraham Weintraub, da pasta de Educação, e pelas pressões contra a permanência de Ernesto Araújo à frente do Ministério das Relações Exteriores e Ricardo Salles, no Meio Ambiente.

Dois bolsonaristas de raiz acabam de deixar seus cargos como vices-líderes do governo na Câmara.

O primeiro foi Ottoni de Paula do PSC do Rio. Anunciou sua saída, abre aspas, "para poupar o presidente" de pressões, desde que ele gravou um vídeo com ataques ao Supremo Tribunal Federal.

O outro a ser afastado, Daniel Silveira, do PSL do Rio, anunciou que deixa o cargo a mando do general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo. Segundo o deputado, para dar espaço a algum deputado do chamado centrão, o bloco informal de partidos sem coloração ideológica que garante maioria tanto ao governo quanto à oposição, dependendo de para onde jogue sua força.

O apoderamento do centrão e dos militares realmente deixa a ala ligada aos filhos do presidente e a Olavo de Carvalho próxima da depressão.

Especialmente em meio ao baixo astral que a pandemia do coronavírus trouxe para o mundo e, mais ainda, para o Brasil, com os principais ministérios do governo, Saúde e Educação, sem ministros efetivos.

Por enquanto a estratégia do grupo ideológico é tentar montar barricadas em torno da pasta da Educação e convencer o presidente a indicar um nome ligado aos bolsonaristas de raiz. E, de preferência, que a indicação ocorra logo, para abafar o noticiário de escândalos.

Nesta manhã, o mais cotado é o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo, do PSL de Goiás. É mais jeitoso e menos bélicos do que o Weintraub. E liberaria a área no Congresso para o centrão, com quem não se entende muito bem.

Diminui o baixo astral da turma do presidente, mas não resolve.