PUBLICIDADE
Topo

Tales Faria

Eleições de 2020 repetirão estelionato eleitoral de 34 anos atrás

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

22/10/2020 13h56

Já disse antes que a primeira vez que ouvi falar em estelionato eleitoral foi em 1986, quando o então presidente, José Sarney, adiou medidas de ajuste fiscal para depois das eleições daquele ano a fim de beneficiar os candidatos aliados nas eleições para governador. Agora parece que virou moda.

Você já notou que o Congresso anda meio paradão? Ficou tão parado que esta semana o Senado teve que fazer um mutirão para sabatinar diretores das agências reguladoras. Esses colegiados estavam ficando sem quórum, sem diretores para tomar decisões.

O ritmo do Congresso não diminuiu só por causa da pandemia do coronavírus. É que este é um ano eleitoral. Nós já estamos no final de outubro e, no mês que vem, em novembro, mais precisamente no dia 15, teremos o primeiro turno das eleições municipais.

Os congressistas já estão em plena campanha em suas cidades. Para eles próprios, ou para seus aliados locais. Então não dá para ficar votando temas polêmicos a essa altura do campeonato. Há risco de perder eleitor.

Vamos fazer as contas: dia 15 de novembro, no mês que vem, daqui a pouco, tem o primeiro turno. E no dia 29, final de novembro, o segundo turno.

Sim, o segundo turno é muito importante, pois, na maioria das grandes cidades do país, não devem ocorrer vitórias em primeiro turno nas eleições de prefeitos. Ou seja, os parlamentares estão com agenda cheia até o final de novembro.

Depois vem dezembro, o mês do Natal e dos festejos de Ano Novo. O dia 24 cai numa quinta-feira. O resultado é que o Congresso só terá condições de funcionar, de fato, depois das eleições, em dezembro, no máximo até o sábado do dia 19 daquele mês.

Vai ser assim: agora, vota-se o inadiável como ocorreu com as sabatinas dessa semana no Senado, e como talvez ocorra na semana que vem com alguns vetos presidenciais que podem caducar.

Acabam as eleições e o governo e seus aliados no Congresso - ou seja, o centrão - terão umas duas ou três semanas para votar o tal ajuste nas contas públicas de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, tanto fala agora.

Entendeu por que governo e o comando do Congresso empurraram com a barriga essa história de reforma tributária, novos impostos, reforma administrativa, cortes de salários e benefícios previdenciários?

O acerto é esse: eles se entendem ao máximo agora, planejam tudo e seguram as votações para depois das eleições municipais. Aí, nas primeiras semanas de dezembro, entre o fechamento das urnas e os festejos de Natal e Ano Novo, podem abrir o saquinho de maldades.

É aquele estelionato eleitoral de que falei no início. Feito, sobretudo, para beneficiar os candidatos do centrão pelo país.

Bolsonaro, Guedes e companhia seguram o saquinho de maldades e, quando as urnas se fecharem, em dezembro, o centrão promete votar a toque de caixa o que for possível para ajudar nas contas do governo. O que não der, tenta aprovar no início do ano que vem.

Resta saber se os partidos do centrão terão força e disposição de pagar a promessa. E se o país aguenta até lá.

Ou se aguenta depois que as ideias de Paulo Guedes forem implantadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL