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Tales Faria

João Santana ressurgiu das sombras para se colocar no mercado

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

27/10/2020 18h59

João Santana, o velho marqueteiro das campanhas de Lula e Dilma Rousseff à Presidência, ressurgiu das sombras no programa Roda Viva, da TV Cultura, para dizer que seu descasamento com o PT, não tem mais volta.

Não tem mesmo.

Para se livrar de uma punição mais dura, ele cedeu a Sérgio Moro e à equipe da Lava Jato e fez delação premiada contra os antigos cônjuges.

Faz parte do jogo. Quem viveu os anos de chumbo sabe que uns resistem mais e outros, menos, à tortura. O esquema de prisões temporárias sem prazo definido, montado por Moro, é quase uma tortura.

Tudo bem, o marqueteiro não ficou muito tempo no pau de arara. Mas faz parte do jogo.

João Santana foi um cara tão importante nos governos petistas quanto o também poderosíssimo Antonio Palocci. Que também cedeu à delação premiada. Mas isso é problema deles.

Ninguém dava um pio na área de publicidade sem passar pelo marqueteiro cujo apelido é Patinhas. Sinceramente não sei bem por quê. Quando o vi, mais novo, não achei parecido fisicamente com o Tio Patinhas, muito menos agora. A riqueza, que o igualaria ao personagem de Walt Disney, só veio muito depois do apelido.

Mas como eu disse, João Santana, o Patinhas, voltou das sombras. Achei curiosa essa afirmação da separação irreversível do PT, porque a entendi como um recado para o mercado: "Olha aí, não sou mais PT!"

Afinal, ele tem todo o direito de voltar à ativa. Pode ser até que nem queira campanhas eleitorais. Sei lá. Mas não custa acenar para o mercado.

Também, é claro, gostei quando a jornalista Malu Gaspar, da revista Piauí, lembrou a entrevista de Marina Silva aqui no UOL, em que a ex-candidata à Presidência acusou João Santana e Dilma de terem inventado as fake News no Brasil contra ela, na campanha eleitoral.

João Santana chamou Marina de mentirosa e disse que faria tudo outra vez.

Outra coisa interessante foi quando disse que Lula prestou um desserviço ao Brasil ao não ser candidato em 2014. Não acho que este fosse o problema.

O desserviço de Lula foi ter escolhido uma candidata à sua sucessão, em 2010, achando que ela teria que lhe dar a vaga em 2014. O desserviço foi não querer ninguém que lhe fizesse sombra.

E a Dilma tinha o direito de achar que podia governar outra vez. Ninguém tem a obrigação de se achar incompetente.

Não deixar surgir novas lideranças de fato dentro do PT, e até fora do partido, é que foi o pecado de Lula.

Ciro Gomes e Eduardo Campos, naquela época, eram opções viáveis de liderança no campo da esquerda às quais Lula não quis dar espaço ou apoio.

Lula, assim como Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco, foi um sucesso da Presidência. Mas ainda não vi por aqui um sujeito como o ex-presidente do Uruguai José Mujica, que acaba de renunciar ao Senado, num discurso comovente, abrindo espaço às novas gerações.

Já o João Santana, este não me comoveu. Nem mesmo sendo o primeiro entrevistado do Roda Viva com tornozeleira eletrônica.

Por um momento me lembrou a deputada Flordelis, que conduz seus cultos com tornozeleira. É triste, mas é a vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL