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Tales Faria

'Bolsonaro Paz e Amor' retirou a máscara

Presidente Jair Bolsonaro costuma refugiar-se no lado de fora das vidraças do Palácio da Alvorada - UESLEI MARCELINO
Presidente Jair Bolsonaro costuma refugiar-se no lado de fora das vidraças do Palácio da Alvorada Imagem: UESLEI MARCELINO
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

11/11/2020 08h44Atualizada em 11/11/2020 12h57

As críticas generalizadas ao fato de o presidente Jair Bolsonaro ter politizado o combate e as vacinas contra o coronavírus; a derrota do seu ídolo, Donald Trump, nas eleições dos Estados Unidos; a preparação para a guerra pela eleição do novo presidente da Câmara contra o atual presidente, Rodrigo Maia; o mau desempenho de seus candidatos nas campanhas municipais deste ano; o cerco de seus ministros militares aos ministros da área ideológica; o risco que ele vê de a crise econômica se acirrar, e o Congresso e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, parados.

Tudo isso tem literalmente tirado o sono do presidente da República.

Seus auxiliares mais próximos contam que ele tem tido noites de insônia no Palácio do Alvorada. Às vezes, irritado, ansioso, deixa a proteção das portas de vidro do empíreo projetado pelo comunista Oscar Niemeyer e posta-se, desolado e isolado, em conjecturas no gramado.

A irritação aflorou e o presidente não consegue mais vestir a fantasia de "Bolsonaro Paz e Amor" que costurou para atrair a adesão do Centrão na virada do ano.

Em solenidade ontem no Palácio do Planalto, ele jogou ao chão a máscara pacifista. Falando em pólvora, simplesmente ameaçou abrir guerra contra os Estados Unidos. E classificou como um ainda candidato o presidente eleito, Joe Biden, que ameaça um cerco internacional contra a política antiambiental do governo brasileiro.

"Assistimos a um grande candidato à chefia de Estado dizendo que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, ele vai levantar barreiras comerciais contra o Brasil (...) Apenas na diplomacia não dá (...) Quando acaba a saliva tem que ter pólvora", disse Bolsonaro, na cerimônia do Planalto.

A declaração de guerra não foi bem recebida nem pelo embaixador dos EUA no Brasil designado por Trump.

Logo depois, Todd Chapman postou uma mensagem parabenizando o Corpo de Fuzileiros Navais norte-americano pelo aniversário de 245 anos. Num recado sutil e diplomático, o embaixador acrescentou à publicação um vídeo que aponta o destacamento como o "maior do mundo" e está "sempre de prontidão para responder de forma rápida, seja por terra, ar ou mar".

O novo velho Bolsonaro puxou a metralhadora na cerimônia e atirou até mesmo contra o seu país, chamando a todos de "maricas":

Tudo agora é pandemia, tem que acabar com esse negócio. Lamento os mortos, lamento. Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer. Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas. Olha que prato cheio para imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás. Temos que enfrentar (de) peito aberto, lutar.

Rodrigo Maia entendeu os motivos da irritação do presidente e respondeu no Twitter que está disposto à guerra:

No entanto, Bolsonaro costuma fazer movimentos erráticos. Em geral, quando avança demais e sofre reações fortes, como essas, acaba recuando para depois atacar novamente. É possível que faça algum movimento de recuo nos próximos lances. Mas os bolsonaristas radicais estão felizes da vida com os últimos gestos do presidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL