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Tales Faria

No mínimo, 67 milhões de brasileiros não terão um feliz Ano Novo

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

31/12/2020 12h31

Este 31 de dezembro de 2020 não é só o último dia do ano. É também o último dia de vigência do auxílio emergencial, determinado pelo Congresso para as famílias de baixa renda sobreviverem à pandemia provocada pelo coronavírus. Ficarão sem receber mais de 67 milhões de desempregados e trabalhadores com renda menor que 522 vírgula 5 reais por mês. Dá para acreditar que eles terão um Feliz Ano Novo?

Você não acredita? O governo diz que sim. Nesta semana o Ministério da Economia soltou uma "Nota Informativa" em que afirma que o ano será bom para todos. Porque teremos ajuste fiscal, reformas tributária e administrativa e, talvez, um crescimento do Produto Interno Bruto de míseros 3,4% segundo o boletim Focus do Banco Central.

Míseros porque estão longe de cobrir a queda do PIB que vivemos nos últimos tempos.

A nota deixa claro que eram transitórias as medidas adotadas para diminuir o impacto da pandemia entre os mais pobres: "Pois transitória também é a crise atual, e [as medidas] se encerram sem exceção até o final desse ano."

Ou seja, se o Congresso aprovar a prorrogação do auxílio, a disposição do governo é pelo veto presidencial.

Segundo a Constituição, este é um direito do presidente da República. Só há uma chance de o auxílio emergencial permanecer, diz o ministro da Economia, Paulo Guedes: se houver uma segunda onda da pandemia no Brasil.

Entendeu agora por que o presidente Jair Bolsonaro está insistindo em que estamos no finalzinho da pandemia? Que não há, nem haverá segunda onda?

O número de mortos voltou a crescer em todo o país. Já se foram mais de 190 mil vidas. Não sem sofrimento. Nas grandes cidades hospitais estão lotados e crescem as filas para UTIs e respiradores.
Mas o presidente deixou claro, neste final de ano, durante um passeio pela praia do Guarujá, em São Paulo, que não haverá mais auxílio emergencial.

O governo está atrasado na aquisição de vacinas que já começam a ser aplicadas no resto do mundo; o Ministério da Saúde nem sequer encomendou as seringas necessárias para a aplicação dessas vacinas. Mas vai tudo bem no ano que vem, diz o Ministério da Economia.

Não há aumento de mortes pela pandemia, muito menos segunda onda. A tal gripezinha apontada pelo presidente da República, segundo o governo, está chegando ao fim e não há necessidade de proteger as 24 milhões de pessoas que, sem o auxílio emergencial, cairão na pobreza extrema.

Tudo bem no ano que vem!

Peço desculpas pelo baixo astral. Feliz Ano Novo, se for possível.