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Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro sugere golpe para tirar foco da pandemia do noticiário

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

01/04/2021 10h24

Lembra do acidente com um Airbus A330 da Air France, que caiu no mar entre o Brasil e a França em 2009? Foram 228 mortos. Teve também, no ano passado, a queda do Boeing 737-800 no Irã. Foram 176 mortos. Uma média de 200 mortos em dois dos maiores acidentes dos últimos tempos. Pois bem, estamos chegando no patamar dos 4 mil mortos por dia no Brasil. É como se 20 aviões desses caíssem num só dia.

Passamos dos 300 mil mortos e não se sabe mais quantas vidas serão perdidas. Nenhum de nós viveu uma crise sanitária tão grande em toda sua vida.

Mas temos o presidente Jair Bolsonaro que negou todas as recomendações da ciência, foi contra uso de máscaras, promoveu aglomerações, fez propaganda de tratamentos precoces não comprovados, spray nasal, cloroquina...

As pessoas começaram a se dar conta de que, afinal, o presidente da República tem responsabilidade pelo que está ocorrendo, assim como seu governo como um todo e os ministros da Saúde que pouco ficaram no cargo durante a pandemia.

Aí começa a despencar a popularidade do presidente. E o que ele faz? Lança mão da estratégia que tem utilizado sempre que surgem notícias ruins no horizonte: inventar uma crise, chamar a atenção para outro assunto. Pode ser uma briga com o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, outra com algum ministro do Supremo Tribunal Federal como Alexandre de Moraes, ou qualquer coisa.

Desta vez, como o problema real é do tamanho de um bonde - ou melhor, de 20 aviões de grande porte matando 4 mil pessoas num só dia - Bolsonaro resolveu chamar a atenção com uma história realmente grande: a possibilidade de cometer um autogolpe de Estado.

Foi aí que ele criou essa crise militar, demitiu o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. E colocou no comando do Ministério seu chefe da Casa Civil, o general Braga Netto.

Conseguiu o que queria: roubou parte do noticiário sobre a pandemia e o patamar de 4 mil mortes por dia.

Bolsonaro não tem como obrigar as Forças Armadas a dar um golpe. Foi notabilizado na caserna como um mau militar pelo general e ex-presidente da República Ernesto Geisel. Mas ele tem um batalhão de milicianos e protosoldados nas forças de segurança espalhadas pelos estados que podem impor algum terror.

A única coisa que Bolsonaro precisa é que os militares não o atrapalhem. Se possível que digam amém a cada ameaça que faça aos civis, para desconversar da pandemia e de outras crises. Tomara que eles não o sigam.

Enquanto isso, nós seguimos carregando os nossos mortos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL