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Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Contaminação dos militares pelo centrão lembra a origem do Comando Vermelho

General Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), General Braga Netto (Ministro da Defesa e ex-chefe da Casa Civil) e  General Luiz Eduardo Ramos (Chefe da Casa Civil e ex-secretária de governo). - General Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), General Braga Netto (Ministro da Defesa e ex-chefe da Casa Civil) e  General Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil).
General Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), General Braga Netto (Ministro da Defesa e ex-chefe da Casa Civil) e General Luiz Eduardo Ramos (Chefe da Casa Civil e ex-secretária de governo). Imagem: General Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), General Braga Netto (Ministro da Defesa e ex-chefe da Casa Civil) e General Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil).
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

09/07/2021 12h35

O endurecimento do regime militar em 1968 resultou na edição do Decreto-Lei 898. Permitia a inclusão de qualquer pessoa que cometesse assaltos a instituições financeiras, sequestros e outras ações armadas na Lei de Segurança Nacional (LSN). Era forma de a ditadura dizer que não havia diferença entre crimes políticos e comuns.

A fuga de nove presos da Penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro, em maio de 1969, provocou a transferência de 56 presos comuns para o Instituto Penal Cândido Mendes, que abrigava presos políticos na Ilha Grande.

Lá, na chamada "Galeria B", passaram a conviver os enquadrados na nova versão da LSN. William da Silva Lima, o "Professor", era um desses presos comuns. Ele escreveu o livro "400 x 1 - Uma história do Comando Vermelho" em que descreve a criação do grupo Falange Vermelha, em 1979, que deu origem ao CV.

A Falange tinha como lema "Paz, Justiça e Liberdade". Seus principais fundadores foram William da Silva Lima, Paulo César Chaves, Eucanã de Azevedo, Rogério Lemgruber, José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, e José Carlos Gregório, o Gordo.

Dos presos políticos o Comando Vermelho absorveu dois ensinamentos básicos: a necessidade de formação de um colegiado central para tomada de decisões no presídio e a criação de um fundo único para distribuição dos recursos entre seus membros.

Acabou se tornando a base para o aparecimento do crime organizado no Rio de Janeiro, inspirando, inclusive, a criação em São Paulo de seu grande adversário no tráfico e nos presídios do país, o PCC (Primeiro Comando da Capital).

Hoje o crime organizado se alastrou pelo país e outras facções mais fortes que o CV já se instituíram. Nasceram nas fileiras do CV nomes como Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar; Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco; e Márcio Nepomuceno dos Santos, o Marcinho VP.

A moral da história é que de bons propósitos o inferno está cheio.

A forma como presos políticos se organizaram nos presídios era mais do que aceitável diante da situação em que se encontraram. Sua aproximação e relacionamento com os presos comuns foi um dado de realidade. Era inevitável naquela conjuntura.

É mais ou menos assim que o alto clero dos militares está vendo e vivendo a atual situação do país.

Da mesma forma que os militantes políticos da década de 70 nutriam críticas aos criminosos comuns, os generais costumam criticar o "toma lá dá cá" promovido por alguns políticos com os governos no Congresso.

O atual chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) da Presidência da República, general Augusto Heleno, por exemplo, sempre nutriu enormes críticas ao centrão, grupamento político sem coloração ideológica que domina o Congresso e apoia praticamente todos os governos em troca de benesses.

Augusto Heleno chegou a ter gravado um discurso em convenção do PSL na campanha eleitoral de 2018. Cantava uma paródia de "Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão" incluindo na música os políticos do centrão.

Eleito Bolsonaro, os militares foram convidados e aceitaram assumir em massa cargos no governo. O argumento principal é de que, com isso, os políticos seriam vigiados e a barganha, mantida sob controle.

Esqueceram-se de que o presidente, embora de origem militar, foi obrigado a deixar o serviço ativo pela porta dos fundos. E que ele passou 28 anos como político, sempre filiado a partidos do centrão. A maior parte do tempo, Bolsonaro foi do PP, a principal sigla do grupo.

Na primeira crise, Bolsonaro trouxe o centrão para o governo e os militares passaram a conviver, lado a lado, com os indicados do grupo para a administração da coisa pública.

O que a CPI da Covid está revelando no Ministério da Saúde é que as benesses não pararam de circular.

Militares, como os coronéis Elcio Franco e Marcelo Blanco, passaram a dividir com indicados do centrão, como Roberto Dias, a administração de grandes quantias. Passaram a viver a sedução promovida por achacadores e corruptores de todos os matizes.

Os bons propósitos iniciais dos militares ao entrar na administração civil - e se misturar com aquela parcela dos políticos que tanto criticavam - tornaram-se risco de contaminação. Agora a caserna encontra-se ameaçada pelos pecados do grupo que tanto criticava.

Uma ameaça que prejudica o país como um todo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL