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Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro trucou aos gritos; o STF pagou para ver, como no pôquer

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

05/08/2021 18h56

O pôquer é um jogo das elites. De gente endinheirada, alguns até frequentam cassinos. O carteado do interior do Brasil é o truco. Jogado aos gritos. Também muito praticado na América Latina, na Espanha e na Itália. Por aqui, há basicamente três tipos: o truco mineiro, o gaudéria e o paulista. Filho de uma família de imigrantes italianos e alemães, Bolsonaro nasceu na pequena Glicério, cidade do interior de São Paulo. Está acostumado à gritaria dos jogadores de truco que blefam aos berros, não ao blefe silencioso do jogo de pôquer.

Tudo isso explica um pouco as imprecações do presidente contra as instituições brasileiras. Ora em manifestações na Praça do Três Poderes, ou em frente ao comando do Exército em Brasília — em que seus seguidores empunhavam faixas em defesa do AI-5 e pelo fechamento do Congresso —, ora em marcha batida para o Supremo Tribunal Federal, carregando aliados. Chegou a ser recebido pelo então presidente da Corte, Dias Toffoli, numa cena constrangedora.

Bolsonaro fez toda sua carreira política jogando truco, e muitas vezes blefando aos berros. Vale lembrar quando ele defendeu a morte de Fernando Henrique Cardoso. Era um desses blefes. Mas ali também ele falou na morte de 30 mil pessoas. Essas foram cumpridas com a pandemia do coronavírus.

Quanto à guerra civil que também defendeu, aparentemente é outro blefe. Mas ele tem insistido nos últimos tempos.

Segundo os dicionários, o autor do truco também pode ser classificado como corajoso. A palavra "truco" é apontada como sinônimo de coragem. E essa é outra estratégia do presidente ao trucar: aparentar coragem para seus seguidores. Alimentar o mito de que é um verdadeiro mito!

Mas a verdade é que ele sempre acaba recuando quando é enfrentado por um oponente que se mostra de fato mais forte. Foi o caso do Congresso, comandado pelo centrão, que pariu Bolsonaro e que, no entanto, ele tanto demonizou.

Bastou o centrão adiar, derrotar ou ignorar alguns dos seus projetos - e tornar o governo inviável - para que Bolsonaro entregasse a Casa Civil ao senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, principal partido do centrão.

Nas palavras do próprio presidente, o mandatário do centrão passou a ocupar a "alma do governo".

Bolsonaro tenta, assim, inventar um jogo onde, depois de trucar blefando, ele possa recuar se o adversário pagar para ver, e nada lhe aconteceria.

Estamos agora nessa fase. O presidente trucou, berrou contra e xingou os ministros do Supremo Tribunal Federal. Chama-os de idiotas, ameaça usar seus generais para dar o golpe...

Mas o Judiciário resolveu pagar para ver.

Diferentemente de Bolsonaro, que joga truco, os ministros do Supremo jogam pôquer. Quando enxergam um blefe, pagam para ver, mesmo que silenciosamente.

Pois bem, chegou a hora de o presidente da República recuar novamente, ou colocar suas cartas na mesa.

Nas duas hipóteses, o mais provável é que ele acabe derrotado. Agora, ou mais tarde

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL