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Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonarismo ameaça fazer de ministros do STF mártires da democracia

Bolsonaro parou de atacar o STF como um todo e passou a apontar os ministros Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como seu alvo prioritário - Fátima Meira/Estadão Conteúdo
Bolsonaro parou de atacar o STF como um todo e passou a apontar os ministros Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como seu alvo prioritário Imagem: Fátima Meira/Estadão Conteúdo
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

07/09/2021 09h42

O presidente Jair Bolsonaro escolheu como alvos prioritários dois dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, este último é também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foi a estratégia que Bolsonaro encontrou para não se dizer que ele está atacando o STF como instituição.

Passou a criticar os dois seguidamente nos últimos tempos. Na sua primeira fala neste 7 de setembro, não citou o nome dos ministros, mas sublinhou:

"Nosso país não pode continuar refém de uma ou duas pessoas, não interessa onde elas estejam. Estas uma ou duas pessoas, ou entram nos eixos, ou serão simplesmente ignoradas na vida pública."

Moraes é alvo porque é ele quem assumiu o inquérito no Supremo sobre as fake news e as ameaças contra a democracia, que envolve líderes bolsonaristas e até os filhos do presidente. Barroso, por sua vez, porque, como presidente do TSE, declarou-se contrário ao retorno do voto impresso defendido por Bolsonaro e já deu mostras de que resistirá às ameaças do presidente de melar o jogo caso seja derrotado.

Apesar de todas as divisões entre os ministros do STF e das desavenças anteriores entre si, eles decidiram se solidarizar com os dois colegas contra os ataques promovidos pelo chefe do poder Executivo.

Afinal, os ministros lembram que, antes de mirar Barros e Moraes, Bolsonaro já havia atacado a instituição como um todo. Como, por exemplo, quando defendeu que o artigo 142 da Constituição pode ser usado para determinar que as Forças Armadas atuem contra a Corte.

A solidariedade aos dois ministros se expandiu para os congressistas que enxergam na atitude do presidente o prenúncio de sua vontade de perpetrar um golpe de Estado. E também para setores da sociedade civil com a mesma avaliação sobre as atitudes do presidente e para os chamados "agentes econômicos", que veem nos ataques à democracia um risco à saúde do mercado.

No final das contas Bolsonaro acabou transformando os dois ministros do STF em verdadeiros heróis na defesa da democracia, tanto mais fortalecidos quanto mais resistirem aos ataques do presidente. E isso eles têm feito desabridamente, como agora, quando Moraes mandou prender um professor bolsonarista que ameaçou matá-lo e ainda bloqueou saques das contas bancárias da Aprossoja, que estaria financiando atos antidemocráticos.

O problema é que Bolsonaro, sentindo-se cada vez mais acuado pelas crises — econômica, sanitária e de popularidade —, tem decidido subir cada vez mais o tom de seus ataques. Isso leva seus seguidores a atos cada vez mais radicais, como o do professor bolsonarista de Santa Catarina, que disse ter empresários dispostos a financiar assassinatos dos adversários do presidente.

Daí Bolsonaro e os bolsonaristas estão a um passo de transformar os ministros não mais em heróis, e sim em mártires da democracia.

Seria um final trágico, mas se voltaria contra o próprio presidente. Não é o melhor caminho nem para ele, nem para os seus seguidores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL