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Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro é quem cortará na Saúde e Educação; ele não pode acusar outros

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

16/10/2021 12h00

Sabe o que o presidente Bolsonaro disse ao ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, sobre o drástico corte nas verbas de sua pasta? Que não sabia. Mas que tinha pedido ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para avisar aos colegas. Tipo assim: "coisa do Posto Ipiranga." Como havia dito quando o deputado Luís Miranda (DEM-DF) lhe contou sobre corrupção no Ministério da Saúde: "coisa do Ricardo Barros" (PP-PR), o líder do seu governo na Câmara.

Pois é. Bolsonaro tem por hábito jogar no colo dos outros a culpa pelos problemas de seu governo. A gasolina aumentou? É culpa dos governadores. Pandemia do coronavírus matou mais de 600 mil? Problema dos estados. E mais: deputados serão responsáveis por cortes na Saúde e na Educação se derrubarem meu veto à distribuição de absorventes íntimos para mulheres de baixa renda. Foi o que disse nas suas lives.

Mas nada disso é verdade. A culpa pela pandemia não é dos governadores, o deputado Ricardo Barros não pode ser o único responsável pela corrupção no Ministério da Saúde, e, formalmente, não é o ministro da Economia quem deve informar aos demais ministros sobre cortes em suas áreas, mas sim o Palácio do Planalto.

Quanto ao veto presidencial ao projeto de distribuição de absorventes íntimos para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Bolsonaro disse que, se for derrubado pelo Congresso, ele será obrigado a cortar verbas para Saúde e Educação.

Outra vez está jogando a responsabilidade no colo dos outros. Quem decide cortes é o presidente da República, assessorado por seu ministro da Economia. Por exemplo: agora em setembro, o governo anunciou sua proposta de redução de subsídios tributários. Alívio com dinheiro público para setores que considera prioritários. Hoje o governo concede R$ 442 bilhões em subsídios.

Guedes e Bolsonaro decidiram cortar apenas 5%, assim mesmo dividido em oito anos. Não houve cortes para templos e igrejas. Sabe quanto tem nessa rubrica para "entidades sem fins lucrativos"? R$ 29 bilhões! E sabe quanto seria gasto no programa de absorventes íntimos? Apenas cerca de R$ 119 milhões. Não dava pra tirar um pouquinho daquele pedação?

É uma questão de prioridade. E quem define isso é o presidente da República. Mas Bolsonaro prefere tergiversar, fazer gracinha, falar de "auxílio modess", jogar a culpa de tudo sobre os outros — inclusive a culpa pelas mortes na pandemia— enquanto ele continua trocando figurinhas com a sua turma. Que se danem os pobres, o meio ambiente, a Saúde, a Educação e a Ciência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL