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Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No domingo o Bolsa Família estará oficialmente morto; o velório já começou

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

06/11/2021 12h00

Cumpro o doloroso dever de informar que neste domingo completaremos 90 dias de vigência da Medida Provisória 1.061. Trata-se do instrumento legal com que o presidente Jair Bolsonaro instituiu o Programa Auxílio Brasil e determinou que, a partir deste prazo, estará extinto o Bolsa Família. Isto mesmo: morto.

A MP foi preparada com esmero, entre outros, pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes. Teve a sustentação política do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) e do seu centrão. Não define sequer a fonte de recursos para o novo programa, mas tem prazo de validade já definido: dezembro de 2022, último mês do mandato do atual presidente da República.

Bolsonaro, Guedes e Arthur Lira são os responsáveis pela estratégia de editar a MP sem definir de onde vinha o dinheiro. Por quê? Para grudar a possibilidade de pagamento no atendimento de outros desejos do governo e de sua base política no Congresso. Atenderão aos pobres se for dado mais dinheiro para os políticos, especialmente do centrão, e para as mágicas contábeis da equipe econômica.

Chantagem? Guedes, Lira, Bolsonaro e companhia preferem não chamar assim.

Mas insistem que, para pagar o tal Auxílio Brasil, o Congresso terá que aprovar uma Proposta de Emenda Constituicional, a PEC dos Precatórios.

O texto adia o pagamento dos precatórios, que são dívidas do governo. Fura o teto constitucional (ele dizem que é apenas uma mudança do tri) para abrir um espaço fiscal de R$ 91 bilhões de reais no Orçamento da União.

A promessa é aumentar os R$ 34 bilhões da verba do Bolsa Família para R$ 50 bilhões de reais no Auxílio Brasil - que, vale repetir, é temporário.

O restante cobriria rombos no Orçamento do governo, mas deixando R$ 10 bilhões de sobra que poderão ser divididos entre os políticos —via emendas parlamentares, o tal Orçamento secreto das chamadas emendas RP9, ou num aumento do fundo eleitoral destinado aos partidos.

Nesse meio tempo, para completar a chantagem, O Bolsa Família veio minguando. A inflação, o desemprego e a pandemia trataram de espalhar a fome pelo país. A população passou a catar comida entre os detritos, como disse certa vez o Manuel Bandeira, ou nos caminhões de lixo.

Com o povo comendo osso ou gritando nas ruas que está com fome, tornou-se mais e mais urgente aprovar alguma liberação de verba.

Na madrugada desta quinta-feira que passou, começou o velório do Bolsa Família. Arthur Lira conseguiu arrancar do plenário a aprovação da PEC dos Precatórios em primeiro turno. Na próxima terça-feira, tentará aprová-la em segundo turno, e o projeto vai para o Senado. A estratégia continuará a mesma: se o Congresso não aprovar, não há dinheiro para os pobres e a fome aumentará.

Aprovada a PEC, Bolsonaro poderá dizer na campanha eleitoral de 2022, que engordou para R$ 400 reais o auxílio aos pobres. E, quem sabe, prometer a manutenção do programa se for reeleito.

Cumprir a promessa? Eles estão cumprindo as de 2018?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL