PUBLICIDADE
Topo

Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

André Esteves, do BTG Pactual, é o "Esteves sem metafísica" de Paulo Guedes

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

13/11/2021 12h55

Nesta sexta-feira, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, enviou à Procuradoria Geral da República um pedido de abertura de inquérito assinado pela Associação Brasileira de Imprensa. É voltado contra o presidente da Banco Central, Roberto Campos Neto, e contra o dono do BTG Pactual, o banqueiro André Esteves. Motivo: um áudio com confidências do banqueiro durante palestra que promoveu para filhos de grandes empresários.

André Esteves chegou a ser preso na Operação Lava Jato. Ele me lembra aquele rápido personagem da "Tabacaria", o poema mais famoso de Álvaro de Campos, um heterônimo de Fernando Pessoa.

Depois de longas e profundas reflexões sobre sua existência, na janela de seu quarto, o poeta viu aquele homem sair da loja de fumo, e guardando o dinheiro. Álvaro de Campos o reconhece: "É o Esteves em metafísica!", disse, concluindo seus pensamentos assim: "E o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança."

Como o Esteves sem metafísica, alguns políticos e gestores públicos ou privados às vezes fazem isso mesmo: tornam nosso dia a dia "sem ideais, nem esperanças".

O banco Pactual, uma das origens do BTG Pactual de André Esteves, foi fundado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Foi lá que Esteves começou a carreira, aos 21 anos, quando ainda estava na faculdade. Tornou-se pupilo e grande amigo do hoje ministro. Uma amizade que causa temores entre seus concorrentes no mercado financeiro.

Numa cerimônia agora em outubro, ao anunciar o novo secretário de Tesouro e Orçamento, Esteves Colnago, Guedes cometeu o que ele próprio chamou de "ato falho". Deu a entender que o banqueiro lhe confidenciou ter sido procurado por "uma ala política" do governo para falar de sua demissão.

No tal áudio da palestra, Esteves revelou, sem metafísicas, ter sido consultado pelo presidente do Banco Central sobre qual deveria ser o piso dos juros no Brasil. E também pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, sobre o que achava da saída de quatro assessores do ministro Paulo Guedes.

Nas suas conversas, gravadas ou não, o Esteves sem metafísica tem demonstrado que está afinado com seu antigo mentor. Assim como Guedes não larga Bolsonaro, ele diz que basta o presidente não falar muito e será reeleito. Tudo ficará bem. É exatamente o que o ministro da Economia tem dito por várias vezes ao chefe.

E assim os dois vão tocando a vida de todos nós. Sem ideais, nem esperanças...

Embed autoplay:

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL