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Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro pode levar o mundo a querer tomar-nos a Amazônia

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

16/06/2022 20h41

Em julho de 2019, o correspondente do jornal inglês The Guardian, Dom Phillips, participou de um café da manhã do presidente Bolsonaro com jornalistas estrangeiros no Palácio do Planalto.

Dom Phillips foi hostilizado pelo presidente exatamente quando perguntou sobre o desmatamento na Amazônia. Bolsonaro respondeu com cara feia: "Primeiro vocês têm que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês."

Naquele café da manhã ainda, Bolsonaro antecipou que ia bater de frente com o então presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que divulgara os dados de aumento do desmatamento, citados pelo jornalista. De fato, o respeitado cientista Ricardo Galvão acabou exonerado. E o Inpe foi esvaziado.

A propósito, foi naquele início de governo Bolsonaro, em 2019, que também foi exonerado da Funai o indigenista Bruno Pereira - agora assassinado junto com Dom Phillips por bandidos do Amazonas.

Mas Bolsonaro defende que gente com Dom Phillips, Bruno, indigenistas, ambientalistas etc. não são "bem vistos" na Amazônia. Não são bem vistos pela turma dele, digamos assim.

O presidente vê com bons olhos os invasores de terras indígenas, mineradores e madeireiros ilegais e até alguns amigos de milicianos, como seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

Deixou isso bem claro desde o início de seu governo e até durante a campanha de 2018. E por toda sua trajetória de sete mandatos como deputado do centrão, mas nem todo mundo sabia.

O problema dele, agora, é que com o assassinato de Bruno e do jornalista inglês, o mundo inteiro se indignou e passou a conhecer mais profundamente sua política: o que está acontecendo na Amazônia é um desleixo proposital.

Daí, vem o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, conforme contou o Jamil Chade aqui no UOL, e solta uma nota exortando formalmente as autoridades brasileiras a proteger os defensores dos direitos humanos e os povos indígenas de "todas as formas de violência e discriminação, tanto por atores estatais como não estatais".

Já vi esse filme antes em outros países. Quer dizer o seguinte: façam algo, se não a comunidade internacional fará!

Eu concordo com Bolsonaro que a Amazônia é dos brasileiros.

Mas sua política de destruição pode acabar levando o mundo a concluir que somos um ameaça ao ecossistema do planeta, tão dependente da Amazônia.

E aí, o tiro sai pela culatra: Bolsonaro pode acabar fazendo com que percamos o controle sobre o que é nosso de direito. Ele dá razão contra o Brasil. Que patriotismo é esse?