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Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Governo soma dividendos da Petrobras às mágicas eleitorais de Arthur Lira

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

29/07/2022 09h47

Não é mera coincidência o anúncio da Petrobras de que pode antecipar a distribuição de dividendos recordes da estatal às vésperas das eleições.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), comemorou no Twitter o que chamou de "má notícia para os pessimistas de plantão". Disse que ele e o governo estão "trabalhando para o mundo real".

O "mundo real" de Lira é o mundo das mágicas que ele consegue produzir. Lira é o chefe do centrão na Câmara e aluno mais brilhante do ex-presidente da Casa Eduardo Cunha, que ficou famoso como operador das pautas bombas contra o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

O atual presidente da Câmara produziu mágicas no Congresso tão ou mais poderosas do que as pautas bombas. Só que, desta vez, a favor do governo, como o Orçamento secreto que distribuiu emendas de milhões de reais para parlamentares escolhidos a dedo pelo centrão.

Outra grande mágica foi a aprovação em tempo recorde de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) contra a Constituição, feita para liberar a gastança em benesses às vésperas das eleições.

É esse tipo de mágica em que o governo se baseia para forçar a Petrobras a diminuir o preço dos combustíveis em função da época pré-eleitoral.

Primeiro foi feito um anúncio na semana passada e agora, nova diminuição do preço dos combustíveis, com uma nota da estatal sugerindo que age independentemente das pressões eleitorais do presidente e protegendo as variações de preço contra mudanças sazonais.

Sazonal, segundo os dicionários, quer dizer "o que é típico de determinada estação ou época". Pois é. Estamos em época de eleições, que ocorrem a cada dois anos. Essa é ou não é uma alteração que se rende a um movimento sazonal e a uma pressão do presidente em campanha?

Vale lembrar ainda que Bolsonaro acabou de pedir para as estatais anteciparem o pagamento de dividendos ao governo a fim de cobrir as benesses da PEC do Arthur Lira e trazer votos para a campanha de ambos à reeleição.

Eis que a Petrobras, então, com o novo presidente recentemente designado por Bolsonaro, anuncia uma contabilidade com dividendos recordes de cerca de R$ 87 bilhões, e a possível antecipação do pagamento aos acionistas.

O governo é o principal acionista da estatal. Terá direito a R$ 25 bilhões que muito ajudarão a cobrir os R$ 100 bilhões necessários para pagar as benesses pré-eleitorais.

É este o mundo real de Arthur Lira e de Bolsonaro, o mundo mágico do vale tudo pré-eleitoral. Cheio de coincidências, digamos assim.

O problema é que, como disse a cientista política Daniela Campello aqui no UOL, eles estão matando a galinha dos ovos de ouro chamada Brasil.

E tudo cairá sobre nossos ombros após as eleições.