Bolsonaro no banco do STF recusa copo de água e só aceita garrafa lacrada
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A decisão de comparecer à Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal para assistir presencialmente a seu julgamento trouxe um desafio também fora dos autos ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Conhecido pela impaciência em se manter num mesmo assunto por muito tempo, Bolsonaro passou um dia inteiro em silêncio, vendo os cinco ministros decidirem se vão torná-lo réu ao lado de outras sete pessoas por tentativa de golpe de Estado.
Segundo a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que também acompanhou a sessão de dentro do plenário da Primeira Turma, o ex-presidente passou boa parte do tempo em silêncio, atento ao debate entre os ministros.
Seu advogado e assessor Fabio Wajngarten chegou a oferecer-lhe um copo de água e Bolsonaro recusou. Wajngarten voltou com uma garrafa de água lacrada e, aí sim, Bolsonaro aceitou. Segundo Wajngarten, "é sempre assim". "Irônico para quem é acusado de ter como plano justamente envenenar os outros através de água e alimentos", comentou Sâmia Bomfim.
Em uma passagem, já perto das 16h, o ex-presidente permaneceu de olhos fechados por alguns minutos.
A sobriedade da sessão não foi casual. O relator Alexandre de Moraes e os demais ministros da turma investiram em baixar a temperatura, segundo uma alta autoridade do Judiciário.
No julgamento de hoje, os ministros se esforçaram em ser didáticos, objetivos e minuciosos, embora sucintos. Procuraram contrastar a gritaria das redes sociais contra uma falsa "anormalidade jurídica" com pouca ou nenhuma lacração.
Quem circula pelos corredores dos tribunais superiores em Brasília percebe um bom diálogo dos ministros com alguns dos advogados de defesa, em particular José Luis de Oliveira Lima, que representa o general Braga Netto. Juca, como é conhecido, um dos maiores criminalistas do país, foi tratado com deferência pelos ministros, reforçando um ambiente de "família judiciária" que atestaria a normalidade do julgamento.
A sobriedade da sessão contrasta com a estratégia de rede social do bolsonarismo de confronto cada vez mais estridente com os ministros e o Supremo.
Mas, no banco do tribunal, na presença daqueles que ele ataca, Bolsonaro precisou permanecer silente.
Na chegada pela manhã e na saída para o intervalo na hora do almoço, Bolsonaro cruzou com familiares de vítimas da ditadura militar, opositores do ex-presidente. Ele passou a centímetros de Ivo e Lucas Herzog, filho e neto do jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura.
Além de Ivo e o filho, a jornalista Hildegard Angel, filha da estilista Zuzu Angel, também presenciou o julgamento.
Familiares de vítimas da ditadura militar, eles lutam há 40 anos contra a anistia aos agentes da repressão. Agora assistem da primeira fileira ao julgamento de generais acusados de atentar contra a democracia brasileira.
"É um momento histórico, que renova nossas esperança em um país verdadeiramente democrático", afirmou Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, cujo assassinato nos porões da ditadura é um símbolo da repressão. "Foi muito simbólica a presença de todos nós na Primeira Turma do STF."