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Em carta, Bebianno diz que Bolsonaro ensinou o filho Carlos a odiar

Gustavo Bebianno e o presidente Jair Bolsonaro - Fátima Meira/Futura Press/Folhapress
Gustavo Bebianno e o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Fátima Meira/Futura Press/Folhapress
Thaís Oyama Thais Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Thais Oyama

Colunista do UOL

15/03/2020 13h59Atualizada em 16/03/2020 13h27

O ex-secretário-geral da Presidência Gustavo Bebianno sugeriu em carta a Jair Bolsonaro (sem partido), deixada aos cuidados do ator Carlos Vereza, que o presidente interrompesse o "ciclo de ódio" alimentado pelo filho Carlos com um bom exemplo.

O advogado, morto na madrugada de ontem de infarto, disse que a atitude seria um exemplo para Carlos Bolsonaro, "para todos nós e para o senhor mesmo".

O caso é relatado em "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos", de minha autoria. Leia a seguir um trecho do livro que se debruça sobre o primeiro ano do governo Jair Bolsonaro:

"Gustavo Bebianno chorava feito criança, com a cabeça afundada no ombro do coronel José Mateus Teixeira Ribeiro. De pé ao lado dos dois, o ministro Onyx Lorenzoni tentava conter as lágrimas. Ele acabara de informar Bebianno que o presidente Bolsonaro havia decidido demiti-lo. De sua cadeira de rodas, o general Villas Bôas observava a cena consternado. O grupo estava no salão do 4º andar do Palácio do Planalto, apelidado de "praia" por causa da bela vista que oferece. Uma ampla janela de vidro que se estende do teto ao piso percorre o espaço retangular de ponta a ponta. Do centro, avista-se a estátua da Justiça e o prédio do Supremo Tribunal Federal. Da extremidade direita, veem-se as palmeiras que delimitam o início da Esplanada dos Ministérios. Bebianno estava nesse canto, de costas para o janelão. Nunca havia lhe passado pela cabeça que não completaria dois meses no cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência. E muito menos que o sonho acalentado desde 2017 fosse terminar dessa forma.

Bebianno se aproximara de Jair Bolsonaro como fã. O advogado formado pela PUC do Rio de Janeiro, com passagem por um dos mais renomados escritórios de advocacia do país, o Sérgio Bermudes, considerava o pré-candidato à Presidência diferente de todos os outros. "É um patriota", dizia. Ele conta que passou a admirar o então deputado em 2008, depois de tê-lo visto elogiar o colega Clodovil Hernandes. O estilista, que morreu no ano seguinte, foi o primeiro deputado federal brasileiro a se declarar homossexual. Clodovil estava no primeiro ano de mandato quando fez um discurso da tribuna em que falava da sua intenção de ajudar a mudar o Brasil e dizia, entre outras coisas, que lhe faltava conhecimento para participar de alguns debates na Casa. Quando terminou, Bolsonaro, no plenário, pediu a palavra: "O Brasil [e] este Congresso mostrariam força para poder mudar nosso país se agissem um pouco mais com inocência, com pureza, com alma de criança do que com alma de velhas raposas".[i] Bebianno lembra: "Vi ali que ele não podia ser aquilo que diziam que era. Homofóbico e tudo mais".

Em 2014, o advogado passou a enviar e-mails para o gabinete de Bolsonaro, elogiando, entre outras coisas, suas críticas aos petistas — em especial à presidente Dilma Rousseff. Nunca recebeu resposta. Em 2017, soube pelo empresário e amigo Carlos Favoreto que o ex-capitão estaria num estúdio de fotos no Rio de Janeiro para produzir uma peça de campanha. Foi até lá e se apresentou. Semanas mais tarde, Favoreto lhe disse que Bolsonaro estaria no Campo de Golfe Olímpico da Barra. Bebianno resolveu encontrá-lo novamente, só que desta vez tomou o cuidado de imprimir todos os e-mails que havia lhe mandado ao longo dos anos — um testemunho da longevidade de sua admiração. No encontro, disse ao deputado que poderia ajudá-lo no processo do STF movido contra ele pela deputada do PT Maria do Rosário por incitação ao estupro. A partir daí, foi ganhando a confiança do candidato, a quem chama até hoje de "senhor" e "capitão".

Bebianno pagava do próprio bolso as despesas com passagens aéreas e hospedagem para ir do Rio a Brasília. Quando as viagens começaram a ficar muito frequentes, Bolsonaro convidou-o para dormir em seu apartamento, poupando-o do gasto com o hotel. Julian Lemos, empresário da Paraíba que também havia se apresentado como voluntário na campanha, já ocupava um colchonete na sala. O apartamento de Bolsonaro, comprado em 2000 por 75 mil reais, fica no Setor Sudoeste do Distrito Federal. Tem dois quartos e 69 metros quadrados. O piso da sala, estufado pela umidade e má colocação das lajotas, estava arrebentado em vários pontos, o que obrigava Bebianno e Lemos a dormir em seus colchonetes sobre o cimento bruto do chão. Naquela época, Carlos, quando ia visitar o pai, ficava no apartamento do então chefe de gabinete do deputado, o capitão Jorge Francisco, morto em abril de 2018.

Desde aquele período, a relação de Carlos com Bebianno era tensa — e a razão era o "ciúme doentio" que, segundo o ex-ministro, o filho nutre por quem quer que se aproxime do ex-capitão. A convivência entre o Zero Dois e o advogado que virou a sombra de Bolsonaro piorou conforme a campanha avançava. Se Carlos ficava sabendo que Bebianno discordava dele sobre alguma decisão estratégica — comparecer ou não a determinado debate, por exemplo —, passava a hostilizá-lo à sua maneira. O que significa cumprimentar todo mundo em determinado grupo e não estender a mão a quem ele não gosta, ou sair de um ambiente assim que a pessoa entra — não sem antes bater a porta com força, como fazia no caso de Bebianno, que por diversas vezes tentou se aproximar dele. "Eu tenho dificuldade de ler você, Carlos. Tenho dificuldade de me relacionar com você. Deixa eu entender qual foi o seu raciocínio", ele dizia. Nesses momentos o filho do chefe se mostrava desarmado. Coçava a cabeça e retrucava em tom de desculpa que era assim mesmo, tinha altos e baixos. Logo depois, porém, voltava à carga.

No dia em que Bolsonaro recebeu autorização médica para voltar ao Rio de Janeiro, depois de 23 dias internado em São Paulo para se recuperar das cirurgias decorrentes do atentado que sofreu em setembro, Carlos chamou o chefe da segurança da equipe de campanha e o encarregou de dizer a Bebianno que não havia espaço para ele no carro que levaria o candidato ao Aeroporto de Congonhas. Enquanto o advogado argumentava com o segurança, Carlos gritou de dentro do carro: "Vai de Uber!".

No dia 4 de fevereiro de 2019, o jornal Folha de S.Paulo revelou que durante a campanha eleitoral o recém-nomeado ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, tinha desviado verba pública destinada ao partido. Álvaro Antônio era presidente do psl em Minas Gerais e, segundo o jornal, usou a cota de gênero para reforçar o próprio cofrinho de campanha. A lei nº 9504, criada em 1997 com vistas a aumentar a participação feminina na política, exige que ao menos 30% das candidaturas e do fundo partidário sejam designados a mulheres. O presidente do PSL mineiro, ele mesmo concorrente a uma vaga na Câmara, selecionou quatro candidatas que receberam, juntas, 279 mil reais -- parte dos quais tiveram como destino quatro empresas em nome de assessores, parentes ou sócios de assessores do ministro, conforme apurou a Folha. No dia 10, o mesmo jornal estendeu a denúncia de uso de candidatas-laranja ao diretório de Pernambuco, domínio de Luciano Bivar, fundador do PSL. Os dois casos passaram a ser investigados pela Polícia Federal.

Como presidente nacional da sigla à época das eleições, cabia a Bebianno planejar a distribuição de recursos aos diretórios estaduais — mas competia a estes escolher quais candidatos receberiam o dinheiro. Quando o escândalo do "laranjal do PSL" veio à tona, a discussão sobre as responsabilidades no caso acabou atropelada por outra mais prosaica.

Na ocasião, Bolsonaro estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para retirar a bolsa de colostomia que usava desde a primeira cirurgia após o atentado em Juiz de Fora. Em Brasília, Bebianno se via às voltas com os rumores de sua queda iminente. Na terça-feira, dia 12 de fevereiro, em entrevista ao jornal O Globo, à pergunta sobre a crise que protagonizava no governo, o ministro respondeu: "Não existe crise nenhuma. Só hoje falei três vezes com o presidente". A frase, de zero potencial explosivo, deflagrou um terremoto político que culminou na primeira baixa do governo Bolsonaro.

No dia seguinte à declaração aparentemente inócua de Bebianno, Carlos Bolsonaro tuitou que era "mentira absoluta" que o ministro havia conversado três vezes com seu pai. O qual retuitou o texto do filho e, numa conversa com Bebianno que seria vazada pelo ministro mais tarde, afirmou que Carlos dizia a verdade quando afirmava que ele e o assessor não haviam conversado três vezes naquele dia — e de nada adiantou o argumento do ministro de que as conversas a que havia se referido tinham ocorrido por WhatsApp. No dia 18 de fevereiro, seis dias depois de permanecer ardendo em praça pública, Bebianno recebeu a notícia de sua demissão. Era seu 47º dia como ministro.

Dias depois da saída, Bebianno escreveu uma longa carta a Bolsonaro, mas não a entregou. Pediu que o ator Carlos Vereza fosse o fiel depositário dela.

Bebianno e Vereza são espíritas e se conheceram durante a campanha — o ator apoiou publicamente a candidatura do ex-capitão. Mas a relação entre os dois nunca havia ido além da troca de cordialidades. Em janeiro, porém, logo no começo do governo, Vereza telefonou para Bebianno e disse que precisava ter uma conversa pessoal e importante com ele.

O ministro recebeu o ator em seu gabinete no dia 15 daquele mês. "O Vereza comprou uma passagem e veio a Brasília com a única finalidade de falar comigo. Sentou-se na minha frente e disse: 'Sei que às vezes você se cansa de tudo e tem vontade de ir embora, mas você tem uma missão a cumprir. Não saia do lado dele'." Desde então, Bebianno diz considerar o ator um homem de "grande sensibilidade espiritual". Daí ter deixado a cargo dele a decisão de escolher o momento para entregar a carta ao presidente. "Ele saberá quando o Jair estará preparado para lê-la", disse.

Na íntegra da carta divulgada por O Antagonista, Bebianno de fato se concentra na relação entre o presidente e seu filho -- diz que Carlos sofre com o próprio ódio, que "aprendeu a ser assim" com Bolsonaro e que o presidente deveria "romper esse ciclo de ódio", dando um "exemplo" ao filho. A menção à sugestão de perdoar Adélio Bispo de Oliveira, relatada à autora por Gustavo Bebbiano, não aparece no texto. Ela, contudo, foi feita pelo advogado e chegou aos ouvidos do presidente, seu filho Carlos e assessores.

Pouco antes de ter a demissão confirmada, Bebianno foi chamado ao gabinete do presidente. Ouviu do ministro que aquela seria uma "reunião conciliatória". Sua fritura havia entrado no sexto dia. Além de Lorenzoni, estavam na sala o vice, Hamilton Mourão, o general Augusto Heleno, o major e futuro ministro Jorge Antônio Francisco, então subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil, e o assessor especial da Presidência Célio Faria Júnior. Bolsonaro, sentado em sua poltrona, tinha o semblante paralisado e os olhos fixos na parede ao fundo da sala. Atrás dele, postado de pé em pose de segurança, estava um militar do GSI.

Bebianno começou a conversa com uma queixa. "Estou sendo achincalhado nas redes sociais com o apoio do senhor", disse ao presidente. Sem olhar para o interlocutor, Bolsonaro murmurou algumas frases irritadas e foi subindo de tom, até que, fitando pela primeira vez o ministro nos olhos, disse-lhe raivoso: "Você tramou contra o Flávio". Bebianno respondeu que não sabia do que o ex-capitão estava falando. Neste momento, para perplexidade da maioria dos presentes, o presidente disse que Bebianno havia tentado se aproveitar do caso Queiroz para que Flávio perdesse o mandato de senador em favor do empresário Paulo Marinho. Marinho, amigo de Bebianno, fora por ele indicado para ocupar a vaga de primeiro suplente de Flávio no Senado. Mourão e Heleno escutaram a acusação de olhos arregalados. Bebianno ficou estarrecido.

A discussão prosseguiu cada vez mais acalorada, até que Bolsonaro disse para Lorenzoni: "Vamos acabar com isso logo, põe ele naquele lugar de uma vez". Constrangido, Lorenzoni dirigiu-se a Bebianno: "Pensamos que seria bom você dar um tempo na direção de Itaipu. O salário é bom, um pau e meio por ano" (o salário mensal do diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, divulgado em 2017, era de 69656 reais, o que daria, na verdade, 835 mil reais por ano, não incluídos bonificações e benefícios). Indignado, Bebianno virou-se para Bolsonaro e perguntou-lhe se achava mesmo que ele fizera tudo o que fizera "para ganhar dinheiro". A partir daí os ânimos se exaltaram a ponto de os presentes precisarem interferir. Bebianno deixou a sala e minutos depois Lorenzoni foi comunicá-lo de que o presidente havia decidido demiti-lo."

[i] Discursos e Notas Taquigráficas da Câmara dos Deputados, 17 jun. 2008; Diário da Câmara dos Deputados, 18 jun. 2008. Disponível em: imagem.camara.gov.br/Imagem/d/pdf/DCD18JUN2008.pdf#page=>. Acesso em 4 dez. 2019.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.