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Thaís Oyama


Bolsonaro continua a derreter nas redes sociais

Thaís Oyama Thais Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Thais Oyama

Colunista do UOL

22/03/2020 00h12

Jair Bolsonaro foi ao programa do Ratinho anteontem. A conversa de compadres entre o apresentador e o ex-capitão foi uma tentativa de reverter a péssima repercussão que tiveram os gestos do presidente diante da pandemia do coronavírus, inclusive junto ao seu eleitorado mais popular.

A estratégia de pouco adiantou. Ontem, dia seguinte à entrevista, o presidente teve um dos seus piores desempenhos nas redes sociais desde que assumiu a Presidência. Os dados são da Bites.

A agência de análise digital trabalha com um algoritmo que mede a capacidade de um usuário de criar ondas de propagação de seus posts, levando em conta o número de likes, comentários e compartilhamentos que eles geram. Chama a isso de "capacidade de tração". No caso de Bolsonaro, a capacidade média de tração é de 23, numa escala que vai de zero a 261 (pico registrado no dia 1 de janeiro de 2019, data da posse). Ontem, esse número despencou para 4,78 - só não foi pior do que o de 19 de dezembro do ano passado, depois que a polícia visitou Flávio Bolsonaro em sua loja de chocolates, na operação de busca e apreensão decorrente do escândalo da "rachadinha".

Dois episódios ajudaram ontem a derrubar a imagem do presidente nas redes: 1) o fato de chamar o Covid-19 de "gripezinha" (46.732 tuítes) e a recusa em divulgar os resultados dos seus exames de coronavírus (83.753 tuítes). Já a entrevista com o compadre Ratinho rendeu-lhe pouco mais que 11 mil posts.

O exército bolsonarista continua trabalhando duro para defender o Mito. Mas não está fácil. Ontem, o post pró-Bolsonaro mais compartilhado foi o que acusava a imprensa de ter se calado diante do fato de o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, diagnosticado com coronavírus na semana passada, ter "colocado 1.300 pessoas em risco" ao participar da festa de lançamento da CNN Brasil, no dia 9 de março. O post teve 241 mil interações no Facebook e Twitter. Mesmo assim, acabou soterrado por outros cinco posts negativos para o ex-capitão, e que somaram mais de 1 milhão de interações. "Isso é um fato inédito", afirma o diretor da Bites, Manoel Fernandes. "A rede de aliados digitais do presidente sempre conseguiu ofuscar os seus críticos. Agora, ainda que ela se empenhe em atacar a imprensa e jornalistas, o movimento contrário está mais forte", diz.

A boa notícia para Bolsonaro: sua base de seguidores se mantém no impressionante patamar de 35 milhões, juntando o Twitter, Facebook, Instagram e Youtube. E, por enquanto, não dá sinais de defecção em massa.
Isso significa que, no lago turvo das redes sociais, Bolsonaro ainda mantém o nariz acima da linha d'água. Mas os últimos números mostram que ele já tem de se apoiar na ponta dos pés para respirar.

Thaís Oyama