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Thaís Oyama


Bolsonaro chamou o povo para a rua, mas o povo preferiu ficar em casa

 O presidente Jair Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada: ele espera "o povo pedir mais" - Joedson Alves/EFE
O presidente Jair Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada: ele espera "o povo pedir mais" Imagem: Joedson Alves/EFE
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

04/04/2020 14h15Atualizada em 04/04/2020 18h18

Contrariando o que o presidente Jair Bolsonaro vem pregando há quase um mês, a maioria dos brasileiros continua achando que é melhor ficar em casa. As últimas pesquisas do instituto Datafolha mostram que, quando o assunto é a melhor estratégia para enfrentar a pandemia do coronavírus, a população fecha com o ministro Henrique Mandetta, principal antagonista do presidente na discussão. Também na esfera do poder, a insistência de Bolsonaro em derrubar a quarentena deixou o ex-capitão entrincheirado. Do outro lado do front, posicionaram-se, além de seus principais ministros, também os presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal.

Ainda assim, Bolsonaro não acha que está só. A defesa da quarentena, diz, é tática de adversários políticos que querem "sufocar a economia para desgastar o governo" e ele, contra tudo e contra todos, pode reabrir o comércio e trazer a "volta à normalidade" com uma canetada — desde que conte com um único apoio.

"Eu só posso tomar certas decisões com o povo estando comigo", disse na quinta-feira de manhã, na saída do Palácio da Alvorada. "Estou esperando o povo pedir mais".

No mesmo dia, à noite, apoiadores do presidente começaram a subir a hashtag ''#NasRuas5DeAbril'', uma manifestação pelo fim do isolamento social, pela reabertura do comércio e contra o "oportunismo" de prefeitos e governadores. Hoje, sábado, tudo indica que a iniciativa fracassou.

As redes sociais estão num silêncio sepulcral e mesmo bolsonaristas militantes admitem que o chamamento às ruas não deve vingar — tudo o que ele produziu até agora foi uma profusão de memes contra o ex-capitão. Um deles, paródia de campanha publicitária famosa, mostra Bolsonaro com a imagem de um caixão fúnebre ao fundo. Na montagem, o presidente convida: "Vem para a Caixa você também".

Bolsonaro disse estar "esperando o povo pedir mais".

O silêncio das ruas soa como resposta.

Menos, presidente, menos.

Se quiser furar o autoisolamento a que se confinou, Bolsonaro terá de se conformar em fazê-lo pelas vias institucionais. Até o momento, pelo menos, o "povo" não parece disposto a estimular as tenebrosas tentações que — como admitiu por mais de uma vez o ex-capitão — sempre rondaram sua cabeça.

Thaís Oyama