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Thaís Oyama


Como tirar proveito do coronavírus

Imagem de microscopia mostra coronavírus atacando a membrana de uma célula - IOC/Fiocruz
Imagem de microscopia mostra coronavírus atacando a membrana de uma célula Imagem: IOC/Fiocruz
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

08/04/2020 12h49

Antes fosse só a cloroquina.

O Fla x Flu ideológico montado em torno do uso ou não uso do medicamento no tratamento da Covid-19 foi uma mostra do que está por vir. No Brasil e no mundo, muita gente já descobriu que a pandemia é a melhor oportunidade para comprovar suas teses — ou fazer propaganda delas. A cloroquina é um exemplo. As longas entrevistas coletivas com cara de palanque, tom de palanque e conteúdo de palanque perpetradas diariamente por políticos na TV, outro. Mas não só.

Para a direita radical, a pandemia do coronavírus e sua evolução são a prova cabal dos males do globalismo (a Organização Mundial da Saúde, por exemplo, dizem eles, não só tenta sobrepujar a soberania dos países ao impor suas orientações de como combater o vírus como "errou" em todas elas). Já para os antagonistas desse grupo, a disseminação da Covid-19 em escala mundial é o argumento definitivo a comprovar o fracasso da globalização (sem um mundo interdependente, afinal, é claro que o vírus nascido na China teria ficado por lá mesmo, concluem).

Até vegetarianos e veganos acharam que era uma boa hora para subir no banquinho. O influenciador e ativista vegano britânico Ed Winters declarou em entrevista amplamente repercutida na internet que a pandemia não teria eclodido não fosse o hábito humano de "usar animais como comida". Já o articulista da revista eletrônica "Salon" Chauncey Devega escreveu que ela só atingiu os níveis atuais porque Donald Trump, que inicialmente a menosprezou, está rodeado de "homens brancos" a aconselhá-lo (Jared Kusher, disse Devega, é um "plutocrata explorador de pobres", e Stephen Miller um "supremacista branco", enquanto o vice-presidente Mike Pence não passa de um "fundamentalista cristão" homofóbico). Aliás, observa o articulista, por que Trump foi eleito mesmo? Por culpa de "eleitores brancos racistas", responde sem piedade.

Entre as incontáveis palavras com que o ainda ministro da Saúde, Henrique Mandetta, brindou os brasileiros ao longo das suas diárias entrevistas sobre a pandemia — e também sobre o sentido da vida, Platão e os encantos da sua cidade natal— uma frase merece destaque. "O inimigo é o coronavírus", disse o ministro. Brancos, pretos, veganos e devoradores de carne: não é hora de tirar casquinha, suas causas podem esperar.

Thaís Oyama