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Thaís Oyama


Bolsonaro expõe o Brasil à chacota mundial

Vodca: a cloroquina do amigo do Bolsonaro - Reprodução/The Moscow Times
Vodca: a cloroquina do amigo do Bolsonaro Imagem: Reprodução/The Moscow Times
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

11/04/2020 18h24

O presidente Jair Bolsonaro está dando muita moleza.

Hoje, pela quarta vez desde o início da pandemia de coronavírus, ele contrariou recomendações das autoridades sanitárias e provocou aglomerações na rua ao visitar um hospital de campanha em Goiás. Ontem havia feito o mesmo ao ir a uma padaria em Brasília, onde comeu um sanduíche e cumprimentou apoiadores (o idoso sorteado com um aperto de mão presidencial imediatamente depois de o ex-capitão coçar o nariz, a essa altura, deve estar rezando pela saúde do mandatário).

Até o passeio à padaria, Bolsonaro incorria no terreno da irresponsabilidade, o que já não era pouco, dado o peso do seu cargo e a situação do planeta.

Depois do passeio à padaria, porém, o presidente passou a adentrar os domínios do Código Penal.

Na semana passada, o ministro do STF Marco Aurélio de Mello arquivou uma representação contra Bolsonaro por acusação de "causar epidemia" e "desobedecer o poder público"- crimes previstos nos artigos 267 e 330 do Código Penal.

"Causar epidemia, mediante a propagação de germes patogênicos" pode resultar em pena de reclusão. Mas neste artigo Bolsonaro não se encaixa, dado que, como disse o ministro Marco Aurélio, não se sabe se o presidente esteve ou não contaminado (e pelo visto nunca se saberá, uma vez que ele se recusa a falar sobre o resultado do seu exame de contraprova enviado à Fiocruz). Assim, não se pode acusar Bolsonaro de propagar germes patogênicos, ao menos não os dele.

Já o artigo 330 tipifica o crime de "desobediência a ordem legal de funcionário público", e também foi refutado pelo ministro porque a representação se referia ao passeio do presidente no dia 15 de março, quando "não havia determinação específica de isolamento pelo poder público", como anotou a Procuradoria Geral da República.

Só que agora há. O decreto assinado no dia 1 de abril pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, estendendo o isolamento até 3 de maio, proíbe entre outras coisas aglomerações e refeições em bares e lanchonetes - justamente o que o presidente causou e fez, debaixo do nariz de todos os brasileiros, incluindo juízes.

Bolsonaro tromba com a lei e insiste em colocar em risco a vida dos outros. Mas não fica por aí.

Ao negar a ciência e protagonizar cenas de irresponsabilidade explícita, o ex-capitão expõe o Brasil à chacota do mundo e garante o seu lugar no panteão dos líderes folclóricos, para não dizer francamente malucos, que, contra tudo e contra todos, criticam e boicotam o isolamento social como medida de combate à pandemia.

Nessa categoria, estão, além do presidente brasileiro, o autocrata sandinista Daniel Ortega, da Nicarágua, para quem o coronavírus não existe; o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, que disse ser a Covid-19 uma "psicose" coletiva e recomendou aos seus concidadãos vodca e sauna como medidas preventivas; e o ditador do Turcomenistão, Gurbanguly Berdymukhamedov, que achou uma forma simples de resolver a pandemia: proibiu o uso da palavra coronavírus em seu país.

Jair Bolsonaro acha que está certo e o resto do mundo, errado.

Mas, pelo menos, ele encontrou a sua turma.

Thaís Oyama