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Thaís Oyama


Com ataque a Maia, Bolsonaro quer mobilizar as ruas

 Bolsonaro: apelo aos "corações verde-amarelo" - Felipe Pereira
Bolsonaro: apelo aos "corações verde-amarelo" Imagem: Felipe Pereira
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

17/04/2020 11h19


O presidente Bolsonaro deu a senha na entrevista que concedeu ontem à noite à CNN: "Rodrigo Maia: isso que o senhor está fazendo não se faz com o nosso Brasil. É falta de patriotismo, falta de coração verde-amarelo".

Foi um claro chamado às ruas. A possibilidade de ter apoiadores na escala dos milhões se manifestando nas cidades CONTRA o Congresso é o maior trunfo que o ex-capitão considera ter na manga para fazer frente a Maia, a quem acusou de querer "quebrar o Brasil" e "quase que conspirar contra o governo federal".

Jair Bolsonaro está convencido de que o presidente da Câmara trama para derrubá-lo, como disse textualmente na entrevista.

Seu raciocínio é, como sempre, simples, linear e inamovível: Maia, com as medidas de socorro aos estados e municípios na pandemia, intenciona quebrar o governo e "jogar a economia no buraco de vez até 2022", de forma a enfraquecê-lo e, ao mesmo tempo, blindar os governadores do ônus de terem fechado a economia. "Os bonitões dos governadores gastam e o governo federal paga a conta", como diz um assessor do presidente. "Assim dá para ficar um ano em isolamento", completa.

A hasghtag #ForaMaia explodiu nas redes de ontem para hoje.

Por enquanto, o presidente da Câmara não mordeu a isca. "Não vou entrar nesse debate. Ele (Bolsonaro) joga pedra e o parlamento vai jogar flores no governo federal".

À oferta das flores, o filho Zero Dois do presidente respondeu com uma tijolada. Carlos Bolsonaro, atiçador mais furioso das massas bolsonaristas nas redes sociais, escreveu no Twitter:


"Botafogo ataca DIARIAMENTE o Presidente nas entrelinhas como um belo frouxo e quando recebe uma resposta aberta incorpora a Madre Tereza! Quanto tempo até vir com papinho de que está sendo atacado por robôs do gabinete do ódio como se a humanidade morresse de amores por ele?"


Ao se referir ao "papinho" de Maia sobre os ataques por "robôs do gabinete do ódio", Carlos Bolsonaro faz menção ao que disse o presidente da Câmara durante a crise entre ele e Bolsonaro ocorrida em maio do ano passado -- e que seria uma reprise exata da atual não fosse por um motivo.

Bolsonaro nunca falou tão alto.

Daquela vez, no auge da refrega, e com Maia prestes a abandonar a condução da aprovação da reforma da Previdência por causa dos ataques contra ele nas redes, o presidente da República apenas terceirizou uma ameaça. Compartilhou um post de internet intitulado "texto apavorante". O texto dizia precisamente o que agora o ex-capitão vocaliza de forma explícita: ele se considera alvo de uma conspiração do Congresso, pode reagir contra isso jogando as ruas sobre a instituição e seja o que Deus quiser.

A senha do presidente já foi captada. A manifestação já tem data. E o propósito explícito de criticar o Congresso.

Bolsonaro a endossará? No ano passado, fez suspense até a última hora e acabou recuando. "Quem defende o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional está na manifestação errada", disse três dias antes da data marcada para as passeatas em seu favor.

Se agir diferente desta vez, o presidente estará acendendo uma fagulha perigosa.

Ou será precisamente essa a sua intenção?

Thaís Oyama