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Thaís Oyama


Entrada do Centrão é pá de cal na ilusão bolsonarista

Bolsonaro com líder do PP na Câmara, Arthur Lira: tapete vermelho no Planalto - reprodução
Bolsonaro com líder do PP na Câmara, Arthur Lira: tapete vermelho no Planalto Imagem: reprodução
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

05/05/2020 13h46


Até sexta feira, o governo Bolsonaro promete despejar seu caminhão de cargos do segundo e terceiro escalão no quintal do Centrão. Com isso, Arthur Lira, Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira e Roberto Jefferson, entre outros, passarão a ser os novos escudeiros de Jair Bolsonaro na briga para impedir a criação da CPI destinada a apurar as acusações de Sérgio Moro e para blindar o ex-capitão do impeachment (Arthur Lira, deputado do PP: réu na Lava Jato por improbidade administrativa e réu no STF por corrupção passiva; Valdemar Costa Neto, comandante do PL: condenado no mensalão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro; Ciro Nogueira, senador pelo PP: denunciado na Lava Jato por corrupção passiva e lavagem de dinheiro; Roberto Jefferson, presidente do PTB: condenado no mensalão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro)

-Sou simplão e como pão com leite condensado, mas comigo a velha política não tem vez.

-Digo umas besteiras sobre torturadores e admito que quero fechar o Congresso, mas se eleito vou acabar com o "toma lá dá cá".

-Passei a vida toda como um deputado de baixo clero e aprovei só dois projetos irrelevantes em 27 anos, mas como sou patriota e tenho boas intenções, estou preparado para virar Presidente da República.

Era o que dizia o Mito. Foi no que os seus eleitores acreditaram.

Mudar de ideia é um movimento doloroso.

Exige lançar ao chão catedrais do pensamento —muitas vezes erguidas com a argamassa da esperança, escoradas na identidade de grupo e mantidas em pé na base da pura teimosia. Mas mesmo o bolsonarista mais cabeça dura uma hora se cansa do esforço mental necessário para justificar o fato de o Centrão adentrar o Palácio do Planalto laureado com cargos, salamaleques e tapete vermelho, enquanto pela mesma porta o ex-ministro Sérgio Moro sai escorraçado e chamado de "traidor".

Mesmo os novos aliados de Bolsonaro já deixaram claro o que acham da palavra do Mito. Na expressão de um deles: "O Centrão paquera, mas só namora quando o dinheiro cai na conta. E, no caso do governo Bolsonaro, apenas depois de sacar na boca do caixa".

Na sexta-feira, quando os parlamentares do Centrão chegarem à fila do caixa, a última catedral bolsonarista terá ido ao chão. E diante do barulho das pedras caindo, os apoiadores do presidente Bolsonaro taparão o ouvido com toda força.

Thaís Oyama