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Thaís Oyama


O Bolsonaro que morde e assopra mostra os dentes de novo

 O presidente Bolsonaro em entrevista em frente ao Alvorada na sexta-feira: quem foi que indicou Aras mesmo? - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
O presidente Bolsonaro em entrevista em frente ao Alvorada na sexta-feira: quem foi que indicou Aras mesmo? Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

25/05/2020 12h15

Durou bem pouco a estada do presidente no modo "assopra". Na semana passada, sem saber se o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello decidiria por divulgar a íntegra ou não do vídeo da reunião ministerial, Bolsonaro posou de bom menino.

Na manifestação de apoio ao seu governo no dia 17, pela primeira vez vetou faixas com palavras de ordem contra o STF e o Congresso. Na reunião com os governadores no dia 21, em vez das caneladas de praxe, o que se viu foram salamaleques mútuos, promessas de bandeira branca e "mãos estendidas". Bolsonaro estava uma seda.

Mas foi só o presidente ter certeza de que a divulgação integral do vídeo era inevitável para voltar a morder. Começou por divulgar, por meio do general Augusto Heleno, nota em que ameaçava com "consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional" a eventual apreensão de seu telefone celular - hipótese apenas considerada por Celso de Mello em pedido de avaliação feito à Procuradoria-Geral da República. Em entrevistas, Bolsonaro vociferou que não era um rato e que "jamais" entregaria o aparelho, mesmo diante de ordem da Corte.

No domingo, nem bem o vídeo havia esfriado, o presidente publicou em suas redes sociais um trecho da Lei de Abuso de Autoridade que prevê prisão para divulgação indevida de gravações. Ninguém teve dúvidas sobre quem era o destinatário da mensagem.

Hoje pela manhã, o presidente mais uma vez mostrou os dentes.

A pretexto de prestigiar a posse de um subprocurador, compareceu de surpresa à sede da Procuradoria-Geral da República, cujo titular, Augusto Aras, é o homem que dirá não apenas se o celular de Bolsonaro deverá ser periciado como definirá o destino do inquérito que corre contra o presidente no STF. Se Aras decidir pelo arquivamento da investigação, Celso de Mello, o relator do inquérito, nada poderá fazer.

Na sexta-feira à noite, em entrevista diante do Palácio da Alvorada, Bolsonaro fez questão de lembrar que foi ele quem pinçou (fora da lista tríplice) o nome de Aras para a PGR. Apesar disso, disse o ex-capitão, o procurador "tem sua independência".

Hum, hum.

Não é outro o recado que Bolsonaro pretende passar com suas últimas bravatas: está vivo e continuará a esticar a corda.

Thaís Oyama