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Thaís Oyama


Weintraub merece mais que uma medalha de Bolsonaro

Abraham Weintraub: a reserva "bolsonarista" de Bolsonaro - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Abraham Weintraub: a reserva "bolsonarista" de Bolsonaro Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

30/05/2020 10h47

Como ministro da Educação, Abraham Weintraub é um ótimo causador de confusão.

Com um ou dois tuítes de mau gosto, ele conseguiu estremecer a relação do Brasil com seu maior parceiro comercial.

Com uma frase em que misturou bravata e ofensa, ambas de baixo calão, subiu o já perigosamente alto grau de tensão entre os Poderes.

E ao elevar ao paroxismo seu costumeiro discurso vitimista, dessa vez às custas do pogrom perpetrado pelos nazistas contra os judeus alemães em 1938, atraiu para o governo a repulsa de toda uma comunidade.

Mas ontem Weintraub foi homenageado pelo presidente Bolsonaro com a medalha da Ordem do Mérito Naval.

Com ele, estavam outras personalidades cujos valiosos serviços prestados à Marinha restam desconhecidos.

No caso, porém, de agraciados como o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, não é preciso muito tutano para compreender a razão do gesto. Já no de Weintraub, o causador de confusão, o motivo da homenagem é menos claro.

Mas nem por isso infundado.

Abraham Weintraub é hoje quem personifica as causas do bolsonarismo-raiz.

É o ministro do governo que cospe tuítes contra Paulo Freire e a "ideologia de gênero", promete varrer do mapa comunistas e globalistas e — mais importante neste momento — diz que Brasília é um cancro e os ministros do STF, vagabundos.

E é aí que ele cresce aos olhos do chefe.

O ministro é hoje o mais credenciado porta-bandeira do discurso anti-establishment — expressão que já não faz sentido na boca de um presidente que acaba de se atirar nos braços do Centrão.

A aproximação de Bolsonaro com a ala do Congresso conhecida pelo apego às piores práticas da "velha política" é condenada por 67% da população, segundo apontou a última pesquisa Datafolha.

Numa gestão cada vez mais parecida com as anteriores, Weintraub representa a reserva "bolsonarista" do governo, aquela que sustenta os (até agora) inabaláveis 30% de popularidade do presidente.

Bolsonaro deve a ele mais que uma medalhinha.

Thaís Oyama