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Thaís Oyama


Quebra-quebra nas ruas é ótimo pretexto para incendiários no poder

Entregador atira objeto durante manifestação na avenida Paulista, em São Paulo - Nelson Almeida/AFP
Entregador atira objeto durante manifestação na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Nelson Almeida/AFP
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

01/06/2020 20h03

Foi há bem pouco tempo.

Uma onda de manifestações contra o governo arrebentou no Brasil e trouxe junto uma fieira de episódios de vandalismo e violência nas ruas.

A pretexto de evitar a desordem generalizada, políticos ligados à situação sondaram o Exército sobre a possibilidade de seu comando apoiar a decretação de um estado de defesa no país -que permite ao governo, entre outras coisas, proibir reuniões e violar o sigilo das comunicações e que, pela Constituição, pode ser instituído mediante a ocorrência de rebeliões populares que ameacem a ordem pública.

A história foi revelada pelo general Eduardo Villas Bôas em entrevista à revista VEJA em abril de 2017. Então comandante do Exército na gestão Dilma Rousseff, o general contou ter ficado "alarmado" diante da abordagem que disse ter sido feita por "parlamentares de esquerda". Villas Bôas enxergou na iniciativa do do grupo uma tentativa dissimulada de usar o Exército para "conter as manifestações que ocorriam contra Dilma Rousseff" — ou, dito de outra forma, uma investida para instrumentalizar a Força em prol do governo petista.

Ocorre que, naquela ocasião, a sondagem partiu de um grupo de políticos isolados - e foi uma faísca imediatamente apagada pelo comandante do Exército.

Ontem, o líder de uma das torcidas organizadas que foram à avenida Paulista manifestar-se "em favor da democracia" disse que o objetivo do movimento era "riscar o primeiro fósforo", já que "partidos de oposição e movimentos populares não se manifestam".

O líder de torcida parece esquecer que o presidente Bolsonaro, seu entorno e seus familiares falam em ameaça de ruptura institucional como quem diz que pode chover. E parece também não se lembrar que Bolsonaro, em suas recentes fricções com os Poderes, já acenou por mais de uma vez com o artigo 142 da Constituição - aquele que diz que

as Forças Armadas podem ser convocadas inclusive por iniciativa do Executivo "para garantir a lei e a ordem".

O governo não precisa de ninguém para riscar o primeiro fósforo.

Já há incendiários demais nele.

Thaís Oyama