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Thaís Oyama


Aceno a armamentistas e antiabortistas mostra Bolsonaro buscando seu núcleo

O presidente Jair Bolsonaro  conversa com apoiadores no cercadinho  do Palácio da Alvorada - Reprodução/Facebook
O presidente Jair Bolsonaro conversa com apoiadores no cercadinho do Palácio da Alvorada Imagem: Reprodução/Facebook
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

06/06/2020 18h55

Convencido de que o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional querem derrubá-lo, o presidente Jair Bolsonaro se volta para a agenda de valores e costumes que o elegeu.

Bolsonaro sabe que, para manter seus apoiares, a única saída é ser cada vez mais Bolsonaro.

Na quinta-feira, na saída do Palácio da Alvorada, ele prometeu "novidades" nas regras de acesso a armas para a turma formada por "colecionadores, atiradores e caçadores" que atende pela sigla CACs, como ensinou o presidente aos frequentadores do cercadinho onde toda manhã ele vai colher aplausos.

Na mesma quinta, Bolsonaro determinou ao ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello, que demitisse dois servidores por causa da elaboração de uma nota que, na visão do ex-capitão, visaria à "legalização do aborto" (o texto, na verdade, tratava de outro assunto e, no trecho em que mencionava o aborto, afirmava falar da prática "nos termos previstos na lei").

Tanto o agrado aos armamentistas quanto o aceno ao público contrário à ampliação da lei do aborto foram devidamente propagandeados pelo presidente em suas redes sociais.

Bolsonaro, assombrado por fantasmas imaginários e acuado por investigações no STF e no TSE, refugia-se no seu núcleo duro — o bolsonarismo raiz, responsável pelos 30% de popularidade que nem as 30 mil mortes decorrentes da "gripezinha" do coronavírus, nem a demissão de Sérgio Moro e nem a entrega de cargos ao Centrão conseguiram abalar até agora.

A necessidade de continuar fidelizando seu núcleo de DNA olavista deve fazer com que, daqui para frente, a retórica sobre a defesa de Deus e da família — assim como as marteladas presidenciais no globalismo, no ambientalismo e nas causas das minorias— frequentem cada vez mais os tuítes e as falas de Bolsonaro. Mesmo porque o discurso da "caça aos corruptos" e da luta contra a "velha política" já não caem bem na boca do ex-capitão.

Thaís Oyama