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Thaís Oyama


O que o caso Adélio tem a ver com o golpismo de Bolsonaro

Adélio Bispo de Oliveira é transferido pela Polícia Federal para prisão - RICARDO MORAES
Adélio Bispo de Oliveira é transferido pela Polícia Federal para prisão Imagem: RICARDO MORAES
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

17/06/2020 12h11

Alguém que vive em permanente estado de desconfiança será sempre mais permeável a teorias conspiratórias, ainda mais se elas coincidirem com aquilo que já lhe ronda a cabeça.

Quando acontece de esse alguém dado a desconfianças extremas ser um homem poderoso, é certo que haverá um grande número de pessoas por perto disposto a apoiar suas teses malucas.

Que outra forma mais eficiente de agradar o chefe do que concordar inclusive com seus delírios?

Jair Bolsonaro vive em permanente estado de desconfiança e os acólitos do Planalto sabem disso.

Desde o atentado cometido contra ele em 2018 não faltou quem, mesmo depois de fartas provas em contrário, o encorajasse a acreditar que o atestadamente insano Adélio Bispo agiu a mando de inimigos.

Um advogado próximo a Bolsonaro chegou a declarar, em público e sem apresentar qualquer prova, que o ex-capitão havia sido vítima de uma tentativa de assassinato perpetrada por uma organização criminosa que cooptou o transtornado (e, portanto, incontrolável, imprevisível e nada confiável) Adélio Bispo.

Ontem, o juiz Bruno Savino, da 3ª Vara Federal de Juiz de Fora, determinou o arquivamento do segundo inquérito sobre o caso. O magistrado tomou a decisão a partir da conclusão da Polícia Federal de que Adélio agiu por conta própria e não sob ordens de alguém (o primeiro inquérito, também arquivado, havia concluído apenas que Adélio Bispo estava sozinho NO DIA do atentado).

Há ainda uma única pendência capaz de reabrir a investigação —por obra e graça da OAB, o celular do advogado de Adélio não pôde ser periciado para investigar quem havia pago seus honorários sob o argumento de que isso violaria o sigilo profissional do defensor. O caso está no STF, mas investigadores concordam que o mais provável é que o próprio advogado tenha tomado a iniciativa de defender o criminoso de graça, em troca de visibilidade.

Com o arquivamento do último inquérito sobre a facada, Jair Bolsonaro terá de se conformar com o fato de que —não obstante a tragédia que viveu, as quatro cirurgias por que passou e as sequelas que persistem até hoje— ele foi vítima de um pobre diabo mentalmente incapaz. Trata-se de uma constatação tão comprovada que nem seus próprios advogados quiseram recorrer da sentença que reconheceu a inimputabilidade de Adélio Bispo.

Ninguém duvida que Bolsonaro continuará acrescentando ao homem que tentou matá-lo o epíteto "do PSOL". Mas fará isso agora mais por conveniência política do que por convicção —já que, segundo relatos de assessores, diante da enormidade de provas apresentadas ao presidente em reunião privativa com delegados da PF responsáveis pelo caso, até a mente borbulhante do ex-capitão já se resignou à verdade.

O problema é que Bolsonaro, como qualquer pessoa que vive em permanente estado de desconfiança, continua vulnerável a teorias conspiratórias, agora de natureza golpista. Por essas teorias, o presidente é a vítima, e não o vilão da história —e, como sempre, não faltam acólitos para apoiá-las.

Thaís Oyama