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Thaís Oyama


Augusto Aras vai segurar o rojão?

O Procurador Geral da República, Augusto Aras: "couro duro" -
O Procurador Geral da República, Augusto Aras: "couro duro"
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

27/06/2020 12h54

Augusto Aras teve de caminhar sobre cinzas para virar Procurador-Geral da República.

Em Brasília, a vacância de um cargo de tamanha importância costuma atrair lobbies vorazes —grupos dentro e fora do Planalto se engalfinham para influenciar na indicação do titular.

Para ser escolhido, Aras teve de tirar do caminho concorrentes de peso, como o subprocurador-geral José Bonifácio de Andrada, o preferido do presidente do STF, Dias Toffoli. Suou a camisa para desmentir os boatos espalhados pela concorrência de que era ligado ao petista Jaques Wagner, ex-governador da Bahia (Aras é baiano), e gastou muita saliva nos muitos encontros que teve em 2019 com Bolsonaro no Palácio da Alvorada —para onde foi levado por seu padrinho, o ex-deputado Alberto Fraga, algumas vezes abaixado no banco traseiro do carro para despistar a imprensa.

Ao final, Aras convenceu o presidente de que tinha suficiente "couro duro" para fazer o que, na época, eram as declaradas prioridades do Planalto: enfrentar a pressão de grupos de meio ambiente que, na opinião do governo, travavam obras importantes e "desaparelhar" a PGR, considerada dominada por procuradores de esquerda.

Aras chegou lá, mas sob os olhares desconfiados da sua categoria. Seu nome nunca constou na lista tríplice que os procuradores enviam ao presidente da República e de onde, desde o governo Lula, saem os novos chefes da PGR.

Desde então, Augusto Aras dá uma no cravo, outra na ferradura.

Até junho, praticamente todas as suas decisões coincidiram com os desejos de Bolsonaro —como o parecer enviado ao STF, em que defendeu a competência do governo federal para definir as políticas de isolamento social no combate ao coronavírus, e as manifestações contrárias aos pedidos de impeachment do ministro Ricardo Salles e do ex-ministro Abraham Weintraub.

Quando a pressão dos procuradores sobre ele começou a aumentar, Aras tomou medidas mais ousadas: pediu a abertura do inquérito "contra atos antidemocráticos", que resultou na prisão de bolsonaristas, e encaminhou pedido de averiguação preliminar sobre a fala ameaçadora do general Augusto Heleno ao STF. Ao menos a segunda medida é certo que dará em nada.

Mesmo assim, a pressão de baixo cresceu. No início do mês, procuradores fizeram um abaixo-assinado em favor de um projeto de emenda à Constituição que obriga o presidente da República a escolher para a chefia da Procuradoria um nome a partir da lista tríplice escolhida em votação pela categoria —uma cutucada direta no couro duro de Aras.

Na semana passada, o "presta atenção" no chefe da Procuradoria foi ainda mais contundente. Dois de seus opositores internos, os subprocuradores Mario Bonsaglia e Nicolao Dino, foram eleitos com votação massiva de procuradores, subprocuradores e procuradores regionais para vagas no Conselho Superior do Ministério Público, o órgão mais importante para deliberações internas da PGR e do Ministério Público Federal.

Por fim, ontem, três procuradores do núcleo da Lava Jato pediram afastamento do cargo. Consideraram uma interferência indevida a visita que fez à base paranaense do Ministério Público uma assessora de Aras, seu braço direito em Brasília. Lindôra Araújo foi a Curitiba com a finalidade de consultar arquivos sigilosos sobre operações da Lava Jato envolvendo notórios inimigos do presidente Bolsonaro, como os governadores Wilson Witzel, do Rio, e Helder Barbalho, do Pará.

O pedido de afastamento dos procuradores da Lava Jato é a manifestação mais eloquente contra a conduta do Procurador-Geral da República no cargo até agora. Augusto Aras foi indicado por Bolsonaro, entre outros motivos, porque convenceu o presidente de que seguraria o rojão. O pavio já está aceso.

Errata: o texto foi atualizado
Uma versão anterior deste texto informava incorretamente que Hélder Barbalho é governador do Paraná e que o ex-governador da Bahia Jaques Wagner é baiano. Na verdade, Barbalho é governador do Pará e Wagner é fluminense. As informações foram corrigidas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Thaís Oyama