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Thaís Oyama


Thaís Oyama

Falar mal da Globo é menos arriscado que bater no STF

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

10/08/2020 13h18

As notícias negativas envolvendo o governo Bolsonaro nos últimos dias abalaram a avaliação do presidente nas redes sociais.

Monitoramento da AP Exata mostrou que, na última semana, o índice de reprovação do governo nas redes -resultado da soma das avaliações "ruim" e "péssimo"— ultrapassou os 40%.

Em maio, logo depois da demissão do ex-ministro Sergio Moro, esse índice havia atingido o pico de 50%, mas vinha gradativamente baixando. Agora, voltou a crescer.

A revelação da existência de mais cheques depositados por Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, "afetou bastante" a imagem do presidente nas redes, segundo Sérgio Denicoli, diretor da AP Exata.

Mas nada que se compare ao estrago feito pelas declarações do Procurador-Geral da República, Augusto Aras, contra a Lava Jato.

A ideia de que o governo quer se juntar ao Centrão para "acabar com a Lava Jato" pegou — e isso pegou mal para Bolsonaro.

Já no mundo real, a conversa é bem outra.

Nem ataques à Lava Jato nem muito menos cheques de Queiroz para a primeira-dama arranharam a popularidade do ex-capitão.

Segundo Maurício Moura, CEO da consultoria Ideia Big Data, o presidente segue compensando a perda de apoio das classes A e B com a conquista das classes D e E, as principais beneficiárias do Bolsa Família.

"A cada vez que os 600 reais do auxílio emergencial caem na conta das pessoas, entre os dias 1 e 5 de cada mês, a popularidade de Bolsonaro sobe".

Mas se há algo que une o mundo virtual e o mundo real em favor do presidente - e Bolsonaro sabe bem disso—são os ataques à imprensa.

Se nas redes bolsonaristas, a ideia é que a "grande mídia" conspira para derrubar o governo, fora da internet, boa parte da população considera que os jornais e as TVs "só dão má notícia".

Não por acaso, foi a imprensa o tema escolhido por Bolsonaro neste fim de semana para voltar ao Twitter. No sábado, quando as mortes por Covid-19 ultrapassaram a marca das 100 mil, o Jornal Nacional levou ao ar um editorial com críticas à conduta do presidente na pandemia.

Sem citar o nome da emissora, Bolsonaro postou que a Globo "só espalhou o pânico na população e a discórdia entre os Poderes". O canal, disse o presidente, também "desdenhou, debochou e desestimulou" o uso da hidroxicloroquina.

Desde a prisão de Fabrício Queiroz, Bolsonaro andava praticamente mudo. O editorial do Jornal Nacional deu a ele uma chance de reaparecer em grande estilo. Falar mal da imprensa, todo mundo sabe, rende likes e aplausos. E, no caso do presidente — cada vez mais enrolado com cheques e rachadinhas— é bem menos arriscado do que bater no Supremo Tribunal Federal e no Congresso .

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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