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Thaís Oyama

Apoio de Bolsonaro a Arthur Lira mostra que presidente jogou a toalha

O líder do "centrão", Arthur Lira: o homem de Bolsonaro na Câmara  - Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados
O líder do 'centrão', Arthur Lira: o homem de Bolsonaro na Câmara Imagem: Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

04/12/2020 10h14

Arthur Lira é o homem que o presidente Jair Bolsonaro quer que presida a Câmara dos Deputados a partir de fevereiro de 2021.

Arthur Lira tem uma ficha criminal do tamanho de uma avenida.

O deputado do PP é acusado pelo Ministério Público Federal de ter liderado um esquema milionário de "rachadinha" quando ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa de Alagoas. Só pelo seu bolso, diz o MPF, passaram R$ 9,5 milhões entre 2001 e 2007. A notícia foi revelada ontem pelo Estadão, mas não chegou a espantar ninguém.

Lira, velho freguês da Justiça, é duas vezes réu no Supremo Tribunal Federal.

Numa das ações, conhecida como a do "quadrilhão do PP", ele é acusado de ter desviado dinheiro da Petrobras junto com a sua turma.

Na outra, é apontado como destinatário dos R$ 106 mil que a polícia encontrou escondidos no meio das roupas de um seu assessor parlamentar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em 2012. O dinheiro teria sido a paga do deputado pelo apoio à manutenção no cargo do então presidente da Companhia Brasileira de Transportes Urbanos.

Assim como seu assessor flagrado no aeroporto, o deputado também teria o hábito de esconder dinheiro vivo — não nas roupas, mas "no apartamento, nas fazendas, em todo canto", como disse em dezembro do ano passado à revista Veja sua ex-mulher, Jullyene Cristine Lins Rocha. Segundo ela, o dinheiro chegava ao apartamento do casal em remessas mensais de R$ 500 mil a R$ 1 milhão. Ela ajudava o marido a conferir e lacrar as cédulas.

Jair Bolsonaro elegeu-se ao criar no imaginário coletivo a ideia de que combateria tudo o que Lira é acusado de fazer.

Bolsonaro seria intolerante com os ladrões do Congresso.

Bolsonaro iria eviscerar a corrupção do país.

Bolsonaro seria impiedoso com o "establishment".

Aí veio a rachadinha. Mas tratava-se de roubalheira no diminutivo, e a saída para os eleitores fiéis ao presidente foi colocar um preço na honestidade. Rachadinha era coisa pouca, quem roubou mesmo foi o PT. Com o avanço das investigações, a rachadinha virou rachadão, e lá se foi o argumento da sua insignificância.

Restou aos constrangidos apoiadores do presidente a tese do "todo mundo faz" — e se todo mundo faz, Bolsonaro não pode governar sem aliar-se ao establishment.

O triste é que quando um presidente — e seus apoiadores— demonstram compartilhar da crença de que a corrupção é a forma normal de fazer as coisas, significa que a corrupção ganhou sinal verde para vicejar no país.

Bolsonaro agora apoia a quintessência de tudo o que esconjurou em público.

Bolsonaro e os bolsonaristas jogaram a toalha.