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ANÁLISE

Reação de governadores apenas reforça marketing populista de Bolsonaro

Thaís Oyama

Colunista do UOL

01/03/2021 11h22

No domingo, Jair Bolsonaro repetiu a velha jogada ensaiada de levantar a bola para aliados cortarem.

Postou no Twitter uma lista com valores que o governo federal havia repassado em 2020 para cada estado da federação. Em seguida, ministros e deputados bolsonaristas passaram a retuitá-la. Eduardo Bolsonaro escreveu abaixo do post do pai: "Perguntem aqueles (sic) que agora decretam lockdown: para onde foi esse dinheiro?".

Na manhã desta segunda-feira, a mais nova tentativa do presidente de jogar para os estados a culpa pela desgraçada situação do Brasil na pandemia teve uma resposta.

Em nota, pelo menos 19 governadores, incluindo aliados de Bolsonaro, reagiram. Lembraram que os valores apresentados pelo presidente são repasses obrigatórios (previstos pela Constituição ou por regras criadas em função do coronavírus) e criticaram o chefe do Executivo por "priorizar a criação de confrontos" num momento em que o Brasil enfrenta uma pandemia de proporções inéditas.

Os governadores estão certos.

Criar confrontos é precisamente a intenção de Bolsonaro. Ainda mais se esses confrontos o ajudam a manter a coesão da tropa, ultimamente um tanto sem argumentos para defender seu capitão.

Mas os governadores estão errados se pensam que a reação em bloco demoverá Bolsonaro de insistir no discurso de que ele não tem culpa pelas tragédias da pandemia.

Primeiro porque até agora essa narrativa tem sido muito bem sucedida - basta ver a popularidade presidencial, que contra todas as expectativas se mantém na casa dos 30%.

Depois, porque o apoio dos governadores ao presidente, relevante num governo tradicional, pouco importa no governo incomum de Bolsonaro.

Ao tripudiar sobre os chefes do executivo estaduais, o presidente que nem partido tem reforça o recado para a sua plateia de que "briga" com as estruturas políticas - ou melhor, está "acima" delas.

Mas desprezar instituições e aliados, tomar decisões isoladas e em direções aleatórias tem um preço. Bolsonaro, com seu desgoverno, cria um estado de tamanha confusão que, no Congresso, por exemplo, nem mesmo o fato de ter feito os presidentes da Câmara e do Senado fez sua agenda avançar.

A votação da PEC emergencial até a reunião de ontem à noite no Palácio do Planalto não andava nem para frente nem para trás. Foi preciso Paulo Guedes ameaçar outra vez pedir o chapéu para o impasse caminhar para uma solução.

Bolsonaro posa de louco e rebelde indomável. Enquanto isso, o Brasil segue sem direção, montado numa carroça.

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