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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Kassio Marques e André Mendonça são o sonho de Estado de Bolsonaro

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

05/04/2021 11h50

"Ele está 100% alinhado comigo".

Jair Bolsonaro se referia a Kassio Nunes Marques quando postou a frase em sua conta no Facebook, em outubro do ano passado, dias depois de confirmar o nome do desembargador para a vaga de Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal.

Até agora, Nunes Marques não decepcionou o presidente.

Em dezembro do ano passado, na discussão sobre a possibilidade de reeleição da cúpula do Congresso - que significaria a manutenção de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na presidência da Câmara e a de Davi Alcolumbre (DEM-AP) no comando do Senado— seis ministros votaram contra a recondução e quatro a favor. Já Nunes Marques isolou-se de seus pares ao inventar um voto híbrido: posicionou-se a favor da reeleição de Alcolumbre, aliado de Bolsonaro, mas contra a recondução de Rodrigo Maia, inimigo de morte do presidente.

Na votação sobre a suspeição de Sergio Moro, no mês passado, Nunes Marques se posicionou a favor do ex-juiz da Lava Jato, o que, na prática, significou colocar-se "contra Lula". Em outras palavras, de novo votou precisamente como teria votado Bolsonaro.

No último sábado, Nunes Marques, contra tudo e contra todos, decidiu proibir Estados e municípios de suspenderem celebrações religiosas em função do coronavírus. Por meio de medida cautelar, o ministro liberou as aglomerações em cultos e missas no pior momento da pandemia, contrariando posição tomada anteriormente pelo próprio tribunal - em abril do ano passado, o STF decidiu por unanimidade que governadores e prefeitos têm autonomia para decretar as ações de isolamento que acharem necessárias.

Mais uma vez, a ação de Nunes Marques coincidiu com a vontade de seu padrinho, o presidente Jair Bolsonaro.

Jair Bolsonaro gosta de gente que se comporta como o ministro Nunes Marques. E o contrário também é verdadeiro.

O ex-ministro da Justiça Sergio Moro não fez o que Bolsonaro queria —entre outras coisas, substituir o diretor-geral da PF que não colaborava com assuntos do interesse do ex-capitão. Bolsonaro demitiu Moro e colocou o fidelíssimo aliado André Mendonça em seu lugar.

O ex advogado-geral da União José Levi não fez o que Bolsonaro queria —entre outras coisas, assinar uma ação pedindo que o STF impedisse governadores de adotarem medidas restritivas de circulação durante o agravamento da pandemia da covid-19. Bolsonaro tirou Levi e, novamente, pôs na vaga o fidelíssimo André Mendonça, substituído na pasta da Justiça pelo delegado Anderson Torres.

O ex-comandante do Exército Edson Pujol não fez o que Bolsonaro queria —entre outras coisas, manifestar-se publicamente contra a decisão do ministro do STF Edson Fachin de anular as condenações do ex-presidente Lula. Bolsonaro despachou Pujol para casa e, na impossibilidade de colocar André Mendonça em seu lugar, acabou engolindo um nome da lista tríplice enviada pelo Exército, o do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.

Para Bolsonaro, o Estado não é apenas uma extensão de seus domínios. É uma estrutura que deve se prestar aos seus interesses políticos e à blindagem da sua enrolada família - e é por isso que lá só cabe gente 100% alinhada com ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL