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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ao colocar Carlos em cena, Mandetta mira calcanhar de Aquiles de Bolsonaro

Carlos Bolsonaro: o Zero Dois desperta em Jair Bolsonaro preocupação especial   - Flickr Bolsonaro
Carlos Bolsonaro: o Zero Dois desperta em Jair Bolsonaro preocupação especial Imagem: Flickr Bolsonaro
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

05/05/2021 10h52

De todos os petardos que o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disparou ontem da CPI da Covid na direção do Palácio do Planalto, um foi especialmente endereçado ao presidente Jair Bolsonaro.

Com a frieza de político experiente que é, adoçada por um jeito de quem nada quer, o ex-ministro mencionou que Carlos Bolsonaro, o filho mais instável do presidente, ficava "atrás do pai" em diversas reuniões de que participou no Planalto, incluindo aquela em que foi instado a apoiar um decreto presidencial mudando a bula da cloroquina, de modo a incorporá-la como medicamento anti-covid no sistema público de saúde.

Senadores da oposição já haviam apresentado requerimento de convocação de três assessores da Presidência próximos a Carlos Bolsonaro: Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Gomes e Mateus Matos Diniz — todos apontados como integrantes do "gabinete do ódio". O segundo filho do presidente não constava da lista.

Isso até Mandetta colocá-lo dentro da cena. Com o depoimento de ontem, as chances de aprovação de um pedido de convocação do Zero Dois passaram a ser reais.

O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) é solitário, introvertido, desconfiado e tem dificuldades de se expressar e de se relacionar.

Mas mantém um vínculo estreito com o pai, que tem para com o filho número dois uma preocupação especial, e vê nele um conselheiro político confiável.

Ultimamente, Carlos tem sido um dos interlocutores mais frequentes do presidente na discussão sobre o partido que ele deve escolher para disputar a reeleição. Foi contra o ingresso do pai no PP, de Arthur Lira, e defende que ele vá para um partido pequeno, em que possa ter o controle da máquina.

O direito de não atender a um chamado das CPIs está restrito aos investigados. Convocados na qualidade de testemunhas, como deverá ser o caso de Carlos Bolsonaro, têm o dever legal de atender o chamado, embora possam se recusar a responder às perguntas dos parlamentares.

O senador Humberto Costa (PT) confirmou ontem que irá apresentar o pedido de convocação do vereador.

Se o Planalto temia pelo desequilíbrio emocional do ex-ministro Eduardo Pazuello, agora é que está mesmo em maus lençóis. Terá que incluir no radar um filho e também um pai.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL