PUBLICIDADE
Topo

Thaís Oyama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Se Bolsonaro olhar pesquisas não pede alta tão cedo: sua reprovação já caiu

Jair Bolsonaro: do lado de fora do hospital, a vida continua dura - Divulgação/Instagram/@michellebolsonaro
Jair Bolsonaro: do lado de fora do hospital, a vida continua dura Imagem: Divulgação/Instagram/@michellebolsonaro
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

16/07/2021 11h32

Como era de se esperar, a internação fez bem à imagem do presidente Jair Bolsonaro.

A parcela de brasileiros que avaliava o seu governo como ruim ou péssimo caiu de 57% para 51%; e a que dizia considerá-lo ótimo ou bom subiu de 20% para 26%.

Os números são do Instituto Ideia, que fez o levantamento entre os dias 12 e 15 de julho em parceria com o grupo Exame. Bolsonaro foi internado no último dia 13.

"A comoção causada pela doença foi a causa direta da melhora na avaliação do presidente", afirma Maurício Moura, CEO do Ideia.

Desde a transferência do presidente do Hospital das Forças Armadas, em Brasília, para o Vila Nova Star, em São Paulo, a rede bolsonarista tem usado tintas dramáticas para expor o estado de saúde do ex-capitão - o que inclui posts com insinuações de despedida supostamente escritos por ele e fotos suas evocando a imagem de Cristo ao lado de um religioso de batina preta.

Os números de hoje do instituto Ideia mostram que a internação de emergência de Bolsonaro e o manejo do evento pela rede bolsonarista estancaram momentaneamente o seu sangramento nas pesquisas. Mas não tiraram de cena as razões que levaram à vertiginosa queda de popularidade do presidente desde o início do ano.

Em janeiro, segundo o instituto Ideia, o índice de "ruim e péssimo" de Bolsonaro era de 34%; e o de "ótimo e bom", 38%. A partir daí, o aumento dos indícios de que a omissão e a má condução do governo na pandemia foram responsáveis pelas mortes de brasileiros, que hoje somam 540 mil, foram corroendo a imagem do presidente.

A instalação da CPI da Covid, no final de abril, acelerou essa tendência.

"Com o início das investigações da CPI, Bolsonaro passou a ser alvo da raiva de dois grupos: o que achava que já poderia ter tomado a vacina muito antes; e o que passou a suspeitar que, além de incompetência do governo na pandemia, houve roubalheira também", analisa Maurício Moura.

Mais de 40% da população diz estar acompanhando a CPI da Covid, segundo o Ideia. No segmento de maior renda e escolaridade, esse índice chega a 56%. É quase o dobro da audiência que o instituto identificou na CPI do Petrolão, realizada no governo Dilma Rousseff.

Jair Bolsonaro parece melhor e ontem até já deu entrevista a um apresentador amigo. Sua evolução clínica é "satisfatória", segundo os médicos, e tudo indica que, ao menos por enquanto, ele deve se livrar de nova cirurgia. As notícias sobre a melhora de sua popularidade certamente contribuirão para melhorar o ânimo do presidente, que só não acredita em pesquisas quando elas lhe são desfavoráveis.

Assim que deixar o hospital, porém, Bolsonaro deverá deparar com bem menos simpatia e compaixão. Entre outros abacaxis, estarão à sua espera uma CPI prorrogada e cada vez mais comprometedora para o governo, uma inflação em alta com reflexos alarmantes nos preços dos alimentos e uma ameaça de crise hídrica com risco de apagão.

A vida real aguarda o presidente do lado de fora do hospital. O pessoal do Vila Nova Star corre o risco de ter de expulsá-lo de lá à força.