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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A morte da mãe de Luciano Hang e até aonde vai o fanatismo bolsonarista

Hang, com Bolsonaro: pode não parecer, mas o fanático teme, sim, o ridículo  - GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO
Hang, com Bolsonaro: pode não parecer, mas o fanático teme, sim, o ridículo Imagem: GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

23/09/2021 11h32

Fanatismo é um estado psicológico de fervor excessivo, que nega a razão, a congruência e o bom senso em favor de uma crença — para o fanático, definitiva e inquestionável. O escritor Amós Oz escreveu que os fanáticos "muitas vezes têm uma resposta de uma só sentença para todo o sofrimento humano".

O empresário Luciano Hang sempre foi um fervoroso defensor do que o presidente Jair Bolsonaro, de quem é aliado, chama de "tratamento precoce" contra a Covid-19.

A mãe de Hang, Regina Hang, contraiu a doença no final do ano passado, foi internada num hospital da rede Prevent Senior em janeiro e morreu no dia 3 fevereiro. Três dias depois, Hang postou um vídeo em suas redes sociais lamentando não ter "feito o (tratamento) preventivo" em sua mãe.

"Se eu tivesse feito, será que ela não estaria viva?", perguntou aos seus seguidores.

O prontuário médico de Regina Hang, no entanto, segundo revelaram os jornais Folha e Estadão, mostra que ela utilizou o kit do tratamento precoce —antes e durante a internação. E que seu filho Luciano Hang tinha ciência disso.

A "resposta de uma só sentença para todo sofrimento humano" de que fala Amós Oz, neste caso, certamente não é a cloroquina, mas Jair Messias Bolsonaro.

Fanáticos têm ídolos e seus ídolos estão sempre certos no final — se acaso dão a impressão de estarem errados, é porque ainda não chegaram ao final, diz a bolha (fanáticos se abrigam nela porque lá ninguém questiona seu ídolo, de modo que eles não precisam lidar com os seus próprios questionamentos).

Sabe-se que quanto mais o fanático se compromete com a sua causa (gastando tempo nas redes sociais para propagandeá-la, por exemplo, ou mesmo despendendo dinheiro em seu favor) mais ele se mistura a ela. E quanto mais se mistura a ela, mais esperneará para defendê-la, mesmo diante de provas cabais de que sua crença está errada.

Dar o braço a torcer, afinal, desmoralizaria não só a causa, mas ele próprio.

Assim, a fim de evitar o ridículo, o fanático faz qualquer coisa para provar que estava certo.

Qualquer coisa mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL