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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Auxílio de 400 reais é hoje única chance para Bolsonaro escapar das cordas

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

20/10/2021 11h57

Em dezembro de 2020, o ministro Paulo Guedes prometia que a economia brasileira iria se recuperar em V. Ou seja, subiria com a mesma força e velocidade com que havia caído no primeiro ano da pandemia de coronavírus.

Já naquela época, raposas da base aliada do governo respondiam às profecias do ministro com olhares de soslaio.

No começo de 2021, as mesmas raposas — sem avistar sinal da outra ponta do V e preocupadas com o destino das próprias caudas atadas ao governo— passaram a temer pelo pior.

Em maio, como registrou esta coluna, próceres do bloco do Centrão alertaram o presidente Jair Bolsonaro de que ele seria derrotado nas urnas em 2022 caso não turbinasse o auxílio emergencial para, pelo menos, R$ 400 — precisamente o valor agora pretendido para o programa que o governo batizou de Auxílio Brasil.

Guedes perdeu o braço-de-ferro com o Centrão não só por ter deixado de entregar o que prometeu, mas porque, para o seu chefe, o risco de perder a eleição nunca esteve tão próximo do nariz.

Hoje, os três indicadores fundamentais nas pesquisas de opinião são os piores possíveis para o ex-capitão.

Seu índice de rejeição (medido pela pergunta se ele merece ou não continuar na Presidência) é alarmantemente alto. O de aprovação do governo (resultado da classificação "ótimo e bom") está em 22%, segundo o Datafolha — muito abaixo do que especialistas consideram ser um "patamar competitivo" para vencer uma eleição.

Por último, o índice de desaprovação de Bolsonaro (53%) é bem maior do que os exibidos pelos seus antecessores que tentaram, e levaram, a reeleição: Fernando Henrique Cardoso, em 1997; Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005; e Dilma Rousseff, em 2013.

E isso não é tudo: analistas preveem que a queda de Bolsonaro nas pesquisas irá se acentuar se aumentar a percepção de que ele não reúne condições para vencer Lula.

Nesse caso, eleitores antipetistas podem "antecipar" o segundo turno da votação investindo seu voto em um nome que lhes pareça ter mais chances que o ex-capitão de impedir a volta do ex-presidente.

Ontem, a ameaça de rompimento do teto de gastos para ampliar o valor e o alcance do Bolsa Família derrubou a Bolsa e fez aumentar o dólar. O temor do mercado é de que a medida provoque o descontrole da inflação, com o consequente aumento dos juros e a piora do desemprego.

Se a perspectiva é ruim para o Brasil, para Bolsonaro tampouco configura garantia de melhora de popularidade. O investimento nos votos das classes D e E, fortemente ligadas a Lula, é medida arriscada e de retorno incerto.

Mas, por enquanto, é a única que ele tem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL