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REPORTAGEM

Após descobrir metástase: "Parei de economizar e trabalhar por trabalhar"

"Hoje eu entendo que ainda não estou em estado terminal, mas sei também que não vou envelhecer" Imagem: iStock
Thaís Oyama

Colunista do UOL

07/06/2022 04h00

Esta é parte da versão online da edição desta segunda-feira (6) da newsletter da Thaís Oyama. Na newsletter completa, apenas para assinantes, a colunista traz a segunda parte do depoimento da jornalista Ana Michelle Soares, que recebeu diagnóstico de câncer metastático aos 32 anos e fala como isto mudou sua vida em até ações do dia a dia. Inscreva-se para receber a newsletter semanalmente.

"'Miga', acabo de saber que estou em estado terminal"

Quando eu li no boletim que era uma paciente "paliativa", meu queixo caiu. Para mim, "paliativo" significava paciente terminal.

Eu tinha uma amiga que é minha irmã de alma, a Renata.

A gente se conheceu logo depois que descobrimos as nossas metástases e fomos caminhando juntas. Mandei um áudio pra ela: "'Miga', acabo de saber que eu estou em estado terminal".

Hoje eu entendo que ainda não estou em estado terminal, mas sei também que não vou envelhecer.

Depois de entender isso, resolvi mudar algumas coisas na minha vida.

Primeiro, decidi que não quero me sentir obrigada a nada. Deixo tudo muito claro para a minha família.

Quando eu quero companhia, por exemplo, eu quero. Quando não quero, não quero.

(...)

"Vejo a vida acontecendo lá fora, me dá uma agonia! Quero fazer coisas, mas não consigo nem falar no celular"

Eu gosto de conversar, mas quando você faz quimio e começa a entrar a cisplatina, por exemplo, sua boca vai ficando com gosto de metal. Daí eu quero ficar em silêncio — se você fala, o gosto piora.

A cisplatina me derruba. Nos primeiros ciclos, eu vomitava sem parar, a ponto de quase perder a consciência e ter de ir para o pronto-socorro.

A barriga incha, eu fico parecendo um baiacu. Sinto enjoo de qualquer cheiro. Escovar os dentes é a pior coisa — qualquer movimento que eu faço na minha boca vem aquela ânsia horrível.

Minha mãe achou uma pasta que tem um gostinho de sal. Eu escovo com o dedo, bem devagarzinho para não dar ânsia.

A cisplatina também me dá muita fadiga. Eu quero fazer as coisas, mas o corpo não acompanha.

Meu, fico vendo a vida acontecendo lá fora, me dá uma agonia! Quero sair, produzir alguma coisa, mas não consigo nem falar no celular. Então, eu me apego às séries. Bati Grey´s Anatomy inteirinha, 293 episódios.

(...)

Também fiquei mais gastona. Não fico pensando em juntar dinheiro. Agora, por exemplo, vou para Paris e estou levando um dinheiro, mas se me der uma vontade de comprar alguma coisa mais cara, não vou ter problema nenhum em passar a mão no meu cartão de crédito e comprar. Depois eu corro atrás do prejuízo. Meu fetiche louco de viagem é bolsa. E gosto muito de maquiagem também. Não passo mais vontade. Compro tudo!

Quando eu descobri a metástase, inventei que queria voltar a trabalhar, mesmo estando afastada pelo INSS. Fiz um acordo doido com a minha chefe: não atenderia muitas contas [Ana Michelle trabalhava numa assessoria de imprensa] e a cada 21 dias iria faltar três, por causa da fadiga oncológica da quimio.

Só que, além de eu começar a trabalhar no mesmo ritmo, aquilo começou a não fazer mais sentido para mim. Eu me pegava olhando pra tela do computador, sem ação: "Meu, por que eu estou fazendo isso? Minha vida pode estar acabando e eu tô escrevendo um release sobre uma oficina de sorvete que vai acontecer no shopping? Sério mesmo?".

Percebi que só estava querendo provar para mim mesma que era capaz de continuar trabalhando. Parei" [continua na próxima semana].

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