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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaristas incondicionais agora têm de engolir também a Globo

O presidente Jair Bolsonaro: engolindo a  "Globo lixo"  - REUTERS
O presidente Jair Bolsonaro: engolindo a "Globo lixo" Imagem: REUTERS
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

04/07/2022 10h45

Agora Jair Bolsonaro deixou seus apoiadores em uma situação difícil.

O UOL revela hoje que, com vistas a propagandear seus feitos em ano eleitoral, o governo praticamente dobrou o gasto com publicidade na TV Globo.

Neste ano, a emissora recebeu da gestão Bolsonaro R$ 11,4 milhões por veiculação de material publicitário, 75% a mais que no ano passado. Foi a primeira vez que a maior emissora do país — chamada por Bolsonaro, seus filhos e aliados de "Globo lixo"— recebeu mais dinheiro do que a Record e o SBT, canais que contam com a simpatia do seu governo.

O bolsonarismo sempre viveu da criação de inimigos em série. Na lista na qual já entraram (e da qual já saíram) o Congresso, a corrupção e a "velha política"— a imprensa e em especial a TV Globo sempre tiveram lugar de honra.

A TV Globo, já disse Bolsonaro, divulga mentiras, persegue a ele e seus filhos, joga "contra o Brasil" e comete "patifarias" e "canalhices". Tudo porque seu governo "acabou com a mamata" das verbas publicitárias.

Os números divulgados pelo UOL mostram que a retórica bolsonarista não resiste ao pragmatismo de uma campanha eleitoral em que o presidente precisa desesperadamente crescer.

Ao longo dos quatro anos de governo, os apoiadores incondicionais do presidente foram obrigados a engolir, entre rachadinhas e o escândalo do MEC, a aliança do mito com o centrão de Arthur Lira (PP); a demissão de grandes animadores do auditório bolsonarista como os ex-ministros Abraham Weintraub e Ernesto Araújo; e, em alguns casos, mesmo a inclusão de entes queridos na lista dos mortos da Covid (assunto que não diz respeito a Bolsonaro porque, afinal, ele não é coveiro).

Como o "cretino fundamental" de Nelson Rodrigues, o "bolsonarista fundamental" é invulnerável à realidade.

Mesmo porque, depois de anos de tuítes em defesa do presidente, discussões no trabalho, na mesa de bar e nas reuniões de familia, é chegado o momento em que o objetivo deixa de ser defender um ponto de vista para ser apenas o de ganhar a discussão — o cérebro quer a vitória, não a verdade, como escreveu o ensaísta e especialista em biologia evolutiva Robert Wright.

Mas dar dinheiro para a Globo lixo? Ah, isso pode ser demais. Para muito bolsonarista, o próximo almoço de família vai descer quadrado.