PUBLICIDADE
Topo

Thiago Herdy

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Assessores de Daniel Silveira espalham fake news em redes sociais

Daniel Silveira teve pena anulada por indulto de graça concedido pelo presidente Jair Bolsonaro - Reprodução/Twitter
Daniel Silveira teve pena anulada por indulto de graça concedido pelo presidente Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/Twitter
Thiago Herdy

Colunista do UOL em São Paulo, foi repórter de O Globo, Época, Estado de Minas e Diário da Tarde. Integrou a equipe do FinCEN Files, investigação finalista do Pulitzer 2021. Vencedor dos prêmios Esso 2008 e 2010 e de menções especiais no Prêmio IPYS/Transparência Internacional, 2009 e 2011. Foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) no biênio 2016/2017. É formado em jornalismo pela PUC Minas.

Colunista do UOL

05/05/2022 04h00

Condenado à prisão pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por conta de ataques proferidos à Corte, pena que foi anulada por indulto de graça concedido pelo presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) emprega em seu gabinete funcionários que disseminam em redes sociais conteúdos classificados pelas próprias plataformas como "fake news".

Levantamento do UOL em arquivos públicos aponta que alguns deles também se dedicam a a atividades profissionais não relacionadas ao serviço parlamentar.

Silveira tem à sua disposição dez secretários parlamentares, com salários entre R$ 2 mil e R$ 15 mil. O gosto pela malhação, a propósito, é um hábito comum à turma.

Funcionário desde janeiro do ano passado no escritório do deputado e com salário de R$ 6.181, Paulo Eduardo Lopes apresenta-se como militante de direita e compartilha conteúdos considerados falsos em suas redes.

Há alguns dias, por exemplo, ele atribuiu ao ministro do STF Luís Roberto Barroso declaração dando conta de que Bolsonaro só seria eleito "por cima do seu cadáver". A falsa declaração teria ocorrido em suposta live com juízes franceses.

"Tal encontro virtual nunca aconteceu", escreveu Barroso em nota divulgada no site do STF. "O Brasil vive a naturalização da mentira. Há uma nova atividade no país: a de traficante de notícias falsas. Vivemos uma decadência ética profunda", escreveu o ministro.

Com salário de R$ 3.566, outra assessora de Silveira, Patrícia Rodrigues Azevedo, compartilhou vídeo do ex-presidente Lula em que ele supostamente se declara líder de uma organização criminosa.

Na verdade, trata-se de uma edição maliciosa de vídeo em que o político se refere à forma como entendia ser visto por integrantes da força-tarefa da Lava Jato, e não uma confissão de culpa, como faz supor o vídeo compartilhado pela assessora.

Em outra postagem, Azevedo questiona a eficácia das vacinas contra a covid-19.

"Tomar três doses da mesma coisa em um ano e ainda assim ser infectado e transmitir o vírus, tenham decência e não brinquem com a inteligência alheia. Chamem isso de qualquer coisa, menos de vacina!", escreveu.

Independência de assessores

O UOL perguntou a Silveira se havia, por parte dele, alguma preocupação em evitar que seus assessores compartilhassem conteúdo falso.

Por meio de sua assessoria jurídica, ele informou não ter "controle ou ingerência" sobre o que os assessores publicam em suas redes. "São redes particulares, com conteúdo privado e responsabilidade de cada um", informou.

O deputado também questionou os métodos de verificação de conteúdo por parte das plataformas, que para ele seriam realizadas por pessoas supostamente "ligadas a vieses ideológicos distintos do parlamentar".

"Quem detém o monopólio da verdade? Quem pode dizer que é falsa ou não alguma postagem? E se for, cabe a quem classificar isso? O Estado, empresas ou o próprio leitor?", perguntou.

Na resposta, a assessoria acusou o UOL de possuir viés ideológico contrário ao seu.

"Este próprio veículo possui viés ideológico contrário ao do parlamentar, e, muitas vezes, utiliza o sensacionalismo para destoar a realidade fática, e totalmente fora do contexto", escreveu.

Empresas dos funcionários de gabinete

Entre os assessores de Silveira estão donos de uma rede de lojas de inspeção veicular em cidades do Rio, de uma prestadora de serviços de comunicação digital para lojas em Petrópolis (RJ) e até de uma academia na mesma cidade, que é base eleitoral do deputado.

O ato da mesa da Câmara dos Deputados que regula a atividade parlamentar não proíbe que estes profissionais sejam sócios de empresas ou tenham outras atividades profissionais. Mas exige uma dedicação de 40 horas semanais, o que equivale a 8 horas diárias de trabalho, entre segunda e sexta-feira.

Ao UOL, Silveira informou que seus assessores prestam serviços "por todo o estado do Rio de Janeiro", atuação que vai desde a "visita a lideranças locais, prefeituras, ONGs e institutos" a "ficar em 'stand by' no gabinete aguardando deliberação de pautas que surgem no decorrer do dia".

O parlamentar disse não interferir na vida profissional de seus auxiliares "após o horário predeterminado de expediente". "A vida particular é de cada um e sempre será respeitada", escreveu.

Além do processo no STF por ataques à Corte, Silveira é alvo de inquérito do MPF (Ministério Público Federal) no Rio de Janeiro, por suspeita de uso indevido de recursos da verba parlamentar.

Dados preliminares da investigação dos procuradores mostram que ele teria pagado R$ 220 mil em dinheiro vivo a um advogado da cidade. Chamado a depor, o profissional não teria apresentado comprovantes de serviços prestados.

Vistoria de veículos

Com vencimentos de quase R$ 7.000 mensais (somados salário e auxílios) pelo trabalho no gabinete de Silveira, o empresário Ruben Felix Ferreira é dono de uma rede de inspeção veicular que atua em pelo menos quatro cidades: Itaboraí, São Gonçalo, Petrópolis e Rio de Janeiro. Junto com o filho, ele administra lojas que são credenciadas pelo estado para realizar as vistorias obrigatórias em veículos blindados ou que usam gás natural.

Pela trajetória de suas empresas na região, recebeu em março deste ano o título de "Cidadania Petropolitana". Ele é funcionário de Silveira desde junho de 2021.

Localizado na tarde desta segunda-feira em Alcântara, bairro de São Gonçalo onde funciona uma de suas empresas, o UOL perguntou a Ruben como era possível conciliar o trabalho parlamentar com a intensa atividade profissional. Ele disse que estava em reunião e que retornaria mais tarde, o que não ocorreu.

Outro assessor do deputado Daniel Silveira, o personal trainer Fábio Rabello é quem administra a academia Fit Bogari, no bairro Cascatinha, em Petrópolis. A academia está situada no prédio do tradicional clube Bogari, e funciona de 7h às 22h.

Rabello é assessor de Silveira, tem salário de R$ 15.698 e recebe um auxílio extra, mensal, de R$ 982. Está na equipe de Silveira desde março do ano passado.

Por telefone, o UOL tentou marcar uma aula com o personal trainer, mas foi informado por um dos professores da escola que seria preciso tratar do assunto diretamente com ele.

"O Fábio é o dono", informou.

Secretário parlamentar no gabinete de Silveira desde dezembro de 2020, Caique Pereira tem remuneração mensal de R$ 2.238 e recebe um auxílio extra de R$ 1.808 mensais.

Fora do gabinete, ele dirige sua empresa, a Kann Comunicação Digital, que oferece serviços de marketing pela internet a empresas da região serrana e promete fazer o "algoritmo do Instagram trabalhar a seu favor, oferecendo alcance, identidade e engajamento".

Mesmo contando com um especialista em redes sociais em sua equipe, depois de sua contratação, Silveira usou recursos públicos para pagar outros R$ 121.300 a agências dedicadas a acompanhar suas redes e seu site.

Ao UOL, Silveira disse considerar "inequívoco" o comprometimento de seus assessores com o mandato.

Segundo ele, a equipe atua com flexibilidade e está submetida à possibilidade de imediata convocação por parte do gabinete.

Ele entende que, caso isso ocorra, "com certeza deixarão de lado seus afazeres pessoais para atenderem ao mandato, haja vista o interesse público estar acima do interesse privado", escreveu.