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Wilson Levy

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É preciso falar sobre as cidades educadoras

As ruas devem ser seguras e convidativas para as crianças - ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
As ruas devem ser seguras e convidativas para as crianças Imagem: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Wilson Levy

Wilson Levy é advogado, doutor em Direito Urbanístico (PUC-SP), com pós-doutorado em Urbanismo (Mackenzie). É diretor do programa de pós-graduação em Cidades Inteligentes e Sustentáveis (PPG-CIS) da UNINOVE. É conselheiro do CONPRESP, membro das comissões de Direito Urbanístico e de Direito Notarial e Registros Públicos da OAB-SP e membro do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo. Foi chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo.

Colunista do UOL

20/01/2022 23h46

A vida nas cidades é uma realidade para mais de 86% dos brasileiros, segundo o IBGE. Ela traz muitas consequências concretas e outras tantas intangíveis, que inscrevem na história de cada cidadão um repertório único de vivências.

Praças e parques constituem as lembranças das crianças. Ruas carnavalizadas são a casa da democracia e das festas populares. Becos escuros escondem o erótico e o ilegal. A paisagem em movimento nos olhos de pedestres e passageiros mostram que a cidade é também espaço de passagem e, por isso, caminhos e trajetos estão igualmente presentes na história de cada um.

Das ambiguidades e disputas que têm lugar na cidade nascem memórias afetivas e experiências de violação ou privação de direitos. A cidade orienta os sentidos, fornece conteúdo para medos e inseguranças e desenha um diversificado imaginário de usos.

De um jeito ou de outro, a cidade educa. Essa é uma percepção que tem enorme significado e que pode ser traduzida de muitas maneiras. O desafio está em transformar o intangível em ações práticas que tornem a vida urbana fonte de aprendizado orientado à cidadania.

A política educacional no Brasil sempre enxergou a cidade sob a ótica da educação para o trânsito. Escolas públicas e privadas apresentaram a cidade a partir de atividades lúdicas que ensinavam as crianças a respeitar o semáforo e a faixa de pedestre. O carrocentrismo, que determinou boa parte do desenvolvimento das cidades brasileiras, também manifestou sua centralidade quando o assunto era educação.

Mas cidade não é só a relação do pedestre com os carros. Há muito que pode ser feito em diversas frentes de trabalho.

A relação entre cidade e educação foi abordada por muitas vozes inspiradoras. Anísio Teixeira, um dos precursores do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, desenhou o modelo de "Escola Parque", fundado nas premissas da educação integral e com profunda conexão com o território. Escolas, afinal, não podem ser vistas como equipamentos desconectados das virtudes e desafios dos lugares que abrigam.

Do lado do urbanismo, projetos como o Urban95, idealizado pela Fundação Bernard van Leer, buscam tensionar as políticas de planejamento urbano para incluir a perspectiva de bebês, crianças e seus cuidadores. 95 centímetros, aliás, é a altura de uma criança de 3 anos e é certo que a cidade não foi pensada sob esse olhar.

A premissa de trabalho do Urban95 é de que é preciso uma cidade inteira para educar uma criança. Para isso, é primordial redefinir estratégias locais, articulando equipamentos públicos e conectando-os ao sistema de mobilidade, de modo a propiciar às crianças e seus cuidadores uma vivência territorial rica, com interações positivas e contato com a natureza e o ambiente construído.

Uma das formas de materializar essa visão é integrando-a a instrumentos da política urbana, tais como os planos diretores. É preciso que o plano diretor da cidade seja o lugar em que essa mediação ocorra. Isso é muito relevante para a cidade de São Paulo, por exemplo, que fará em 2022 a revisão de seu marco legal territorial.

Urbanistas devem enxergar a cidade para além da lógica de zoneamento, entendendo, por exemplo, que no entorno de cada escola há uma oportunidade de intervenção única - no mobiliário, na sinalização, na velocidade dos carros, nas políticas de segurança urbana.

Ativar as janelas de aprendizado desses territórios é urgente. Profissionais da educação, ainda mais no período pós-pandêmico, deverão ter olhos para a rua, para os parques e espaços abertos, integrando-os nas estratégias de ensino-aprendizagem. Política pública educacional não é só o lugar do fetiche de indicadores que não são capazes de captar experiências enriquecedoras e importantes para a formação cidadã.

As cidades brasileiras dizem muito sobre como se formou a nossa cidadania. Transformá-la passa por um olhar mais cuidadoso sobre a relação entre cidade e educação.

Wilson Levy é advogado, doutor em Direito Urbanístico pela PUC-SP com pós-doc em Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É diretor do programa de pós-graduação em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da Universidade Nove de Julho (UNINOVE). E-mail: wilsonlevy@gmail.com.