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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


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Esquema para matar Bolsonaro é boato; não houve denúncia de diretor da PF

Paulo Maiurino, diretor-geral da PF - Reprodução/Alesp
Paulo Maiurino, diretor-geral da PF Imagem: Reprodução/Alesp

Do Projeto Comprova

26/08/2021 14h57Atualizada em 27/08/2021 17h28

É falso que o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Paulo Maiurino, tenha denunciado no Twitter um conluio entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para assassinar o atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

No boato propagado em live pela jornalista Leda Nagle, são quase dois minutos de vídeo em que ela lê o falso tuíte. Na mensagem, o perfil promete descrever com mais detalhes o plano para matar o presidente da República.

Apesar de não ser recente, o vídeo voltou a ser compartilhado no TikTok, com mais de 80 mil visualizações. A conta de Twitter que apresentava a suposta denúncia não é de Maiurino.

A verdadeira conta do delegado na rede social é @PMaiurino. A conta falsa (@d_delegado) não existe mais. A ex-apresentadora do Sem Censura, da TV Brasil, reconheceu o erro dois dias após a live, em 19 de abril de 2021.

Polícia Federal, STF e Lula se manifestaram mais uma vez sobre o caso, negando o conteúdo. A reportagem do Comprova tentou contato com Leda Nagle, mas não obteve resposta. A conta @adamilsonkorban no TikTok também não respondeu às perguntas enviadas no espaço para troca de mensagens.

O Comprova considerou o conteúdo falso porque ele foi inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira. A equipe tentou falar com o perfil que publicou o vídeo, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Como verificamos?

O Comprova fez uma busca avançada pela conta do delegado Paulo Gustavo Maiurino no Twitter associada ao nome de Lula, de Bolsonaro e também ao STF. E não há resultado relacionado a nenhum dos três. Essa consulta foi motivada pelo fato de que, embora a verificação seja de uma publicação no TikTok, o conteúdo fazia referência a uma suposta postagem do policial no Twitter.

Ao fazer uma pesquisa convencional com o nome do delegado, no entanto, apareceram vários compartilhamentos do conteúdo suspeito e ainda outras verificações sobre o assunto, como a da Boatos.org, que o classifica como falso.

A reportagem do Comprova também consultou outras checagens sobre o tema, feitas pela Agência Lupa, Aos Fatos, UOL Confere e Estadão Verifica. Também usou a ferramenta Wayback Machine para conferir posts da conta atribuída a Maiurino.

O Comprova entrou em contato com o Departamento de Polícia Federal (DPF) para questionar sobre a veracidade das informações imputadas ao chefe da instituição.

Além disso, procurou pelas redes sociais a jornalista Leda Nagle, que aparece no vídeo lendo o texto atribuído a Maiurino, e ainda pela seção "contato", disponibilizada em seu site para interação com seguidores.

Também foram consultados Lula e o STF, mencionados na publicação, bem como o Twitter, que foi questionado sobre a conta atribuída ao delegado federal, mas não deu um retorno conclusivo. O autor da publicação (@adamilsonkorban) foi procurado por meio de sua conta no TikTok, mas, até a publicação deste texto, não se manifestou.

Verificação

  • O vídeo

Leda Nagle aparece no vídeo recém-divulgado no TikTok fazendo a leitura de um tuíte no Clube da Notícia, um quadro do seu canal no YouTube em que repercute assuntos do dia. A live é do dia 17 de abril deste ano e atribui ao delegado federal Paulo Maiurino o conteúdo sobre uma suposta armação para matar Bolsonaro.

Em um dos trechos, mostrando a fachada do Supremo, o perfil falso diz que partiu dali, em conjunto com Lula e outros, a ideia do atentado contra o presidente. Dois dias depois, em nota, Leda Nagle pede desculpas pelo erro.

"Algum membro do grupo, por má-fé, ou porque ficou impactado pela notícia, pinçou um trecho de 2 minutos de uma live de 47 minutos e viralizou antes mesmo que eu tivesse voltado com a checagem completa da informação, até porque não tem live no domingo e isto só aconteceria às 20 horas de hoje na live aberta de toda segunda-feira. Lamento o ocorrido", escreveu a jornalista. Novamente procurada sobre o caso, Leda Nagle não se manifestou.

O vídeo, porém, voltou a viralizar no TikTok há poucos dias, após ter sido publicado pelo perfil @adamilsonkorban. A postagem é acompanhada de hashtags como "#bolsomito", "#bolsonarotemrazao" e "#fechadocombolsonaro". As demais publicações do dono da conta sugerem que ele é apoiador de Bolsonaro, pois são reproduções de falas do presidente, de aliados ou de influenciadores bolsonaristas.

  • Conta verificada

A Polícia Federal desmentiu, em nota enviada ao Projeto Comprova, todo o teor da denúncia lida por Leda, ressaltando que o boato já havia sido refutado em abril. A conta correta que Paulo Maiurino mantém no Twitter é @PMaiurino e tem o selo de verificação da rede social.

Segundo o Twitter, o selo "informa às pessoas que uma conta de interesse público é autêntica". A rede social também esclarece que, para receber a verificação, o perfil deve ser autêntico, notável e ativo. O perfil @d_delegado não continha a marca.

A reportagem ainda consultou outras checagens sobre o tema, feitas pela Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, UOL Confere e Estadão Verifica.

Com o auxílio do Wayback Machine, a reportagem da Lupa verificou uma série de tuítes do perfil @d_delegado, que vão de "curtidas" em tuítes de Jair Bolsonaro e do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) a ofensas contra petistas. Chegam até mesmo a uma tentativa de golpe em apoiadores do presidente. O Comprova confirmou a existência dos posts a partir da mesma ferramenta.

"Preciso de parceiros que possam ajudar financeiramente a entrega de mais de 2,5 mil cestas básicas, as cestas já temos precisamos da doação financeira para podermos pagar o transporte, será entregue em 6 estados para mais de 1,5 mil famílias, se você puder ajudar me chame no privado!", escreve o perfil fraudulento.

A Polícia Federal é uma instituição de estado, e não de governo. Isto é, embora seja do presidente da República a prerrogativa de nomear o diretor-geral da instituição, os policiais federais têm autonomia para executar quaisquer investigações, inclusive contra membros do governo federal. O Ministério da Justiça está diretamente acima da Polícia Federal na cadeia de comando, mas não tem poder para interferir na atuação da instituição, de modo a cessar ou estimular investigações.

Dessa forma, falas a favor de um governante de turno ("vocês querendo ou não, eu sou a favor do @jairbolsonaro") ou contrárias a políticos, ou organizações partidárias ("petistas vagabundos") soam suspeitas, vez que os gestos maculam a credibilidade de agentes federais que podem, eventualmente, conduzir investigações contra os alvos destes comentários.

  • O que dizem STF e Lula

Em abril passado, o STF publicou um texto no site oficial para alertar sobre o conteúdo falso relacionando a instituição à suposta armação para matar Bolsonaro. Em um dos trechos, ressaltava "a importância da checagem de informações suspeitas, como forma de evitar a propagação de fake news com o nome de autoridades e membros da Suprema Corte". Questionado sobre o assunto pelo Comprova, o STF compartilhou o link do mesmo alerta para responder à nova viralização do conteúdo falso.

O ex-presidente Lula também foi procurado e, segundo reforçou a assessoria, a própria jornalista Leda Nagle já pediu desculpas por divulgar o boato.

"Infelizmente, grupos bolsonaristas têm usado fake news com fins políticos contra a democracia, o combate à covid-19 e o povo brasileiro. As autoridades e as plataformas de redes sociais ainda não têm conseguido impedir que grupos de profissionais de fake news atuem na política", acrescentou, em nota.

  • Atentado contra Bolsonaro

Durante a campanha presidencial, em 6 de setembro de 2018, Bolsonaro sofreu um atentado em Juiz de Fora, Minas Gerais. Ele levou uma facada no abdômen, golpe desferido por Adélio Bispo de Oliveira — diagnosticado, posteriormente, com uma doença mental e, portanto, inimputável.

Após o crime, várias teorias conspiratórias passaram a circular nas redes sociais, e alimentadas pelo próprio presidente Bolsonaro, de que o atentado teria o envolvimento de opositores. Adélio Bispo já havia sido filiado ao PSOL, mas tinha deixado o partido quatro anos antes do ataque. Na ocasião, Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL, afirmou que o partido não deveria responder pelo ex-filiado, mas repudiou o ato. Em nota, declarou se tratar de "um grave atentado à normalidade democrática e ao processo eleitoral."

Na resposta da Polícia Federal sobre o post atribuído a Paulo Maiurino, a instituição faz referência ao atentado sofrido por Bolsonaro no período de campanha eleitoral. "Sobre as investigações relativas ao atentado ao então candidato à Presidência, foram abertos dois inquéritos, os quais foram concluídos e encaminhados à Justiça." Nos dois documentos, a conclusão da polícia foi que Adélio Bispo agiu sozinho.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre governo federal, pandemia e eleições que tenham atingido alto grau de viralização. O vídeo aqui verificado teve mais de 80 mil visualizações e 6,5 mil curtidas.

Neste conteúdo estão citados dois prováveis candidatos à Presidência da República nas eleições de 2022 — Jair Bolsonaro e Lula —, criando uma situação falsa de enfrentamento fora das disputas democráticas do sistema eleitoral. Além disso, lança suspeita sobre o STF, órgão que tem sido constantemente atacado por grupos bolsonaristas e pelo próprio presidente.

Desde que iniciou a verificação relacionada às eleições, o Comprova já mostrou que inquérito da Polícia Federal não investiga fraude em votação, que pesquisa antiga engana ao ser usada para sugerir que Bolsonaro é aprovado por metade da população e que frase de ministra do STF é retirada de contexto para dizer que Lula não poderá se candidatar em 2022.

Sobre o conteúdo verificado, a página Boatos.org o classificou como falso, assim como o UOL Confere, Agência Lupa e o Estadão Verifica. O STF também emitiu um alerta sobre a postagem falsa, como já informado.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Este conteúdo foi investigado por A Gazeta e O Povo, e verificado por Correio de Carajás, Folha, Jornal Correio e Jornal do Commercio. A checagem foi publicada pelo projeto Comprova em 24 de agosto de 2021.

O Comprova é um projeto integrado por 33 veículos de imprensa brasileiros que descobre, investiga e explica informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Envie sua sugestão de verificação pelo WhatsApp no número 11 97045 4984.

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