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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos

Governador Márcio França usa dados imprecisos e pesquisa não publicada

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Luiz Fernando Menezes

Do Aos Fatos

05/05/2018 04h00

Márcio França (PSB), que assumiu o governo do estado de São Paulo depois que Geraldo Alckmin (PSDB) deixou o cargo para se candidatar à Presidência, usou números de uma pesquisa eleitoral ainda não publicada para dizer que apoiará o tucano mesmo que Joaquim Barbosa saia como candidato pelo seu partido.

Em parceria com o UOL, Aos Fatos checou as declarações de França durante sua participação no programa "Band Eleições", da TV Bandeirantes, na última segunda-feira (30). Confira abaixo o resultado.

Todos os números apontam que ele [Joaquim Barbosa] está muito bem situado. A gente tem pesquisa com a foto dele, com a imagem, que a pessoa lembra quem ele era e aí vai a 18, 20 pontos. Ele fica pau a pau ali com os principais nomes.

INSUSTENTÁVEL: O governador provavelmente se refere à pesquisa encomendada pelo próprio PSB. Isso porque o partido disse que o potencial de Joaquim Barbosa foi subestimado pela pesquisa do Datafolha. No levantamento, publicado em abril, ele estava com 8% a 10% das intenções de voto. A avaliação é que o eleitorado do interior não liga sua imagem ao candidato, por isso a porcentagem do ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) cai em cidades pequenas.

No entanto, como a pesquisa ainda não foi divulgada oficialmente, a declaração foi classificada como "insustentável".

Vale ressaltar que a pesquisa em que Barbosa aparece com maior percentual de intenções de votos é a última divulgada pelo DataPoder360. De acordo com o levantamento, Joaquim Barbosa teria de 13% a 16% dos votos e ficaria em segundo lugar, atrás de Jair Bolsonaro (PSL), com 20% a 22%. No segundo turno entre os dois, Barbosa venceria o deputado federal, por 37% a 32%.

Outro lado: Procurada, a assessoria de França afirmou, por email, que a pesquisa não foi publicada porque foi encomendada para uso interno. A reportagem pediu o levantamento, mas não foi enviado pelo governo.

A eleição de São Paulo, na capital, nas últimas três [disputas], pelo menos, havia vários nomes na frente [no começo] que depois nunca chegaram a ser o principal nome.

IMPRECISO: Márcio França utilizou as eleições para a prefeitura da capital para defender tanto a candidatura de Alckmin à Presidência quanto a sua ao governo de São Paulo, ambas com baixa intenção de voto.

Na primeira pesquisa da eleição de 2016, Celso Russomanno (PRB) aparecia como favorito, com 34% dos votos.

Atrás dele, vinham Marta Suplicy (PMDB), com 13%, José Luiz Datena (PP), também com 13%, e Fernando Haddad (PT), com 12%. João Doria (PSDB), que no final acabou se elegendo no primeiro turno, estava nas últimas posições, com apenas 3%.

Na última pesquisa antes do pleito, Doria já aparecia em primeiro lugar, com 38% dos votos. Russomanno caiu para a segunda colocação e estava empatado com Haddad, com 14%, e Marta aparecia em quarto lugar, com 12%.

Em 2012, na primeira pesquisa com candidatos determinados, José Serra aparecia na liderança, com 30% das intenções de voto, e Russomanno ficava em segundo, com 19%.

Na sequência, estavam Netinho de Paula (PCdoB), com 10%, Paulinho da Força (PDT), com 8%, e Soninha (PPS), com 7%. Fernando Haddad tinha apenas 3%.

Na véspera das eleições, Russomanno, Serra e Haddad apareciam empatados tecnicamente --com 24%, 23% e 20%, respectivamente. 

Nas duas últimas eleições, portanto, apareceram nomes que se destacaram no começo e perderam força ao decorrer da corrida eleitoral.

Mas isso não ocorreu na eleição de 2008. Os principais nomes no começo da disputa eram Geraldo Alckmin (PSDB), que tinha de 34% a 29% das intenções de voto, e Marta Suplicy (PT), entre 32% e 25%. Gilberto Kassab (DEM) aparecia em terceiro lugar, com 16% a 13%.

No dia antes ao primeiro turno, entretanto, Marta e Kassab eram os cotados para disputar o segundo turno: enquanto a então petista tinha 34% das intenções de votos, o prefeito possuía 28%.

Naquele ano, os três candidatos que saíram na frente --Marta, Kassab e Alckmin-- permaneceram na liderança até o dia do primeiro turno. Por isso o Aos Fatos considera a declaração como "imprecisa".

Outro lado: A assessoria defendeu que a "essência da declaração de Márcio França retrata com a mais absoluta precisão o movimento do eleitorado paulistano" e que se referia ao fato de o candidato que largou em primeiro não conseguir se eleger. No entanto, a frase utiliza a expressão "vários nomes", ou seja, não explicitava apenas um candidato.

São Paulo, a capital, deu 5,8, 5,9 de homicídios para cada 100 mil habitantes. Miami [tem taxa] hoje é [de] 12 por 100 mil.

IMPRECISO: De acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, a capital apresentou uma taxa de 6,1 homicídios dolosos para cada 100 mil habitantes em 2017, último dado disponível, sendo a menor taxa da série histórica.

As taxas de criminalidade dos Estados Unidos são medidas pelo Uniform Crime Reporting, do FBI (agência de inteligência americana). De acordo com os números da última pesquisa, publicada em 2017 com dados de 2016, Miami apresentou uma taxa de 12,2 homicídios dolosos por 100 mil habitantes naquele ano (foram 55 assassinatos em uma população de cerca de 449 mil pessoas).

A cidade também foi considerada pela CBS News a 26ª mais mortal dos EUA em 2017, levando em consideração os assassinatos registrados nas delegacias das cidades no primeiro semestre daquele ano.

De acordo com o levantamento, a localidade mais perigosa dos EUA é Saint Louis, no Missouri, que registrou 92 homicídios na primeira metade do ano passado.

Como o governador comparou as taxas de homicídios em anos diferentes, Aos Fatos considera a declaração como "imprecisa".

Outro lado: Para a assessoria, uma vez que a comparação utilizou os últimos dados divulgados por instituição, não há imprecisão. Porém, faz diferença dizer que os dados são de anos diferentes, então a classificação foi mantida.

A energia cada vez fica mais barata.

EXAGERADO: O governador citou a queda no preço da energia como consequência do avanço tecnológico no país. Entretanto, segundo os dados da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), é errado dizer que as tarifas estão em uma queda constante.

A agência separa as tarifas em 11 classes de consumo: comercial e serviços, consumo próprio, iluminação pública, industrial, poder público, residencial, rural, rural aquicultor, rural irrigante, serviço público de saneamento e serviço público de tração elétrica. O valor é medido em megawatt-hora (R$/MWh).

Como os últimos dados disponíveis na base são de fevereiro deste ano, Aos Fatos usou esse mês como referência.

O preço médio de todas as tarifas (com valores ajustados de acordo com a inflação) realmente caiu de 2008, quando era de R$ 443,47, até 2014, quando chegou a R$ 330,15. Entretanto, o valor subiu nos outros dois anos e atingiu, em 2016, a taxa média de R$ 469,12. Em 2017, o preço voltou a cair (R$ 419,33), mas, no último mês registrado, o valor subiu para R$ 426,19.

Em números proporcionais, a energia hoje está mais barata do que dez anos atrás. Porém não se pode dizer que o preço está em uma queda constante, já que, no período, aconteceram três altas significativas das taxas.

Outro lado: Como "entre 2007 e 2017 a energia elétrica esteve abaixo da inflação, com exceção de 2015, quando ocorreu a crise hídrica nacional", a assessoria entende que a frase está correta. Mas a declaração sugere que a energia está ficando "cada vez mais barata", ou seja, que a queda dos preços é constante, e os dados da Aneel mostram que isso não é verdadeiro.

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