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É boato, cuidado! Passar farinha de trigo em queimadura só piora ferida

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Imagem: Arte/UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

17/05/2018 04h00

Você já deve ter ouvido diferentes sugestões de curas para ferimentos do dia a dia, como que passar manteiga ou pó de café nas feridas ajuda a cicatrizá-las. Recentemente, mais uma receita caseira começou a circular pelos aplicativos de mensagens com sugestão para aliviar queimaduras.

De acordo com a corrente, a "medicina vietnamita" usaria farinha de trigo para curar feridas após contato com o fogo. Segundo o relato, o autor da mensagem teria colocado a mão queimada em um saco de farinha por dez minutos e, quando a retirou, a parte ferida não doía nem estava vermelha.

"Eu uso farinha e eu nunca tenho nenhum traço de queimaduras!", afirma a mensagem. "Eu mesmo tinha queimado a língua uma vez e coloquei a farinha por cerca de 10 minutos... A dor parou."

Ou seja, além de ser eficiente na resposta à queimadura, a farinha também impediria a formação de bolhas ou cicatrizes.

FALSO: Médicos não recomendam usar farinha após queimaduras

A sugestão não procede. "Não sei de onde surgiu, mas é um mito", afirma a dermatologista Tatiana Gabbi, do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo). A médica conta ao UOL que ela mesma já recebera a corrente pelo WhatsApp.

"Tem a história de colocar maisena quando você está com pequenas brotoejas, com a pele quente. Aí, de fato, ela rouba o calor da pele, mas acreditar que farinha de trigo vai curar uma queimadura e nem deixar marcas está muito longe da realidade", afirma a especialista.

A Sociedade Brasileira de Queimaduras também desaconselha o uso. "Não passe no local atingido nenhum produto ou receita caseira", afirma a instituição. "Qualquer substância que seja passada sobre a pele queimada vai irritá-la. Há também o alto risco de infecção por bactérias, fungos e vírus presentes nesses produtos, já que a barreira natural do organismo, que é a pele, está danificada."

"Quando você está com uma queimadura, é porque removeu a barreira mecânica. Se você fica passando produtos como pasta de dente --uma sugestão que ouço desde criança-- pode infectar, criar dermatite de contato", completa a médica.

O que fazer?

Em vez de usar farinha, pasta de dente ou mesmo pomadas, Tatiana Gabbi aconselha a colocar a parte ferida diretamente em água corrente em temperatura ambiente. "Ela vai afastar o calor", explica.

"Tecidos ou materiais que grudam no ferimento, como o algodão, devem ser evitados", sugere também a instituição voltada a queimados.

"Outro cuidado é retirar acessórios, como pulseiras e anéis, pois o corpo incha naturalmente após uma queimadura e esses objetos podem ficar presos."

Estes primeiros passos servem especialmente para queimaduras de primeiro grau, o tipo menos grave, quando o ferimento não passa da epiderme. A ferida pode surgir depois de uma exposição durante muito tempo ao sol ou um contato rápido com uma superfície muito quente.

"Nesses casos, quando está só vermelho, geralmente não é motivo para emergência, não precisa nem ir ao médico. Vale colocar na água corrente para tirar o calor", afirma Gabbi.

A situação, contudo, se complica quando a queimadura está em um dos dois níveis mais graves.

"Por exemplo, se tem bolha [uma das características de queimaduras em segundo grau], não é para estourar", aconselha a médica. "Também alivia colocar a ferida na água, mas depois vá a um médico. Ele irá avaliar se deve ou não estourar a bolha. Se ele optar por fazer isso, será em um ambiente adequado e com o equipamento certo."

Por fim, se o ferimento estiver no pior estágio de queimadura, de terceiro grau, que atinge todos os apêndices da pele, você deve procurar socorro com urgência.

Como identificá-lo? Diferentemente dos outros estágios, aqui o ferido sente pouca ou nenhuma dor e a área está preta, marrom ou acinzentada.

"A pele fica inchada e dura. Às vezes as pessoas acham que não é grave porque não dói, mas não é para esperar, vá correndo ao pronto-socorro", afirma a dermatologista.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Queimaduras, estas lesões são "deformantes e não se curam sem apoio cirúrgico" --muito menos apenas com a aplicação de farinha de trigo.

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