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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos

Paracetamol vendido no Brasil não está infectado com vírus mortal

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/06/2018 04h00

Uma mensagem espalhada pelo WhatsApp pode causar preocupação por ter um conteúdo que, caso seja verdadeiro, faz um alerta sobre a saúde das pessoas. De acordo com o texto, o paracetamol do tipo P/500 estaria sendo vendido no Brasil infectado com o vírus Machupo, responsável por febres hemorrágicas que podem levar à morte.

A corrente diz: "Cuidado, não tome o paracetamol que vem escrito P/500. É um novo paracetamol, muito branco e brilhante, os médicos provam que contêm vírus Machupo, um dos vírus mais perigosos do mundo. Partilha esta mensagem, para todas as pessoas e familiares".

FALSO: Paracetamol não carrega vírus mortal

O Machupo, de fato, é considerado um dos vírus mais perigosos do mundo pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Ele está associado à febre hemorrágica boliviana e sua infecção causa febre alta, acompanhada de fortes sangramentos. Seu desenvolvimento pode levar à morte.

Esta é, no entanto, a única informação verdadeira da mensagem. Falsa e antiga, a corrente já rodou diversos países na Europa, Estados Unidos e Ásia.

De acordo com Marcelo Muscará, professor do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (Universidade de São Paulo), a mensagem circula no Brasil desde 2015, com diferentes versões.

"Às vezes muda o vírus e o remédio, mas o sentido é o mesmo: meter medo na população", afirma o especialista. "É mais do que falsa, não passa de uma atitude terrorista."

Segundo Muscará, não é preciso entender muito de tecnologia farmacêutica para perceber a mentira. "Um vírus jamais poderia sobreviver em um comprimido. Ele é sólido. Se tem água, não chega a 1%", explica o professor. "Em medicamentos biológicos, poderia ser um pouquinho mais suscetível [essa possibilidade], embora ainda improvável. Só que, em formulações secas, está fora de cogitação."

Além disso, o docente afirma que os medicamentos no Brasil passam por um controle de qualidade muito bem feito. "A indústria farmacêutica é muito rígida com os seus produtos, não há a chance de um remédio, que vem para curar, transmitir um vírus. Eles nunca deixariam passar", afirma Muscará.

Quando o boato chegou a suas mãos, o professor pesquisou para saber sobre o suposto paracetamol P/500. De fato, ele existe. Não é exatamente um tipo, mas uma marca registrada. Segundo ele, é um medicamento da empresa indiana Apex.

Talvez por isso tem chegado a tantos outros países. No ano passado, foi repassado ao menos na Índia, nos Estados Unidos, na Albânia e em Singapura. Os ministérios responsáveis pela área da saúde emitiram notas para tranquilizar a população, dizendo não haver motivo para preocupação.

Anvisa também desconsidera circulação de remédio com vírus

Em nota enviada ao UOL, a Anvisa também tranquiliza contra o conteúdo presente na corrente. Responsável pela regulação de medicamentos, o órgão federal garantiu que a confiabilidade de todos os remédios vendidos no Brasil, nacionais ou importados, “é assegurada por meio da definição de rígidos critérios de qualidade adotados para análise da concessão de registros e pós-registros, revalidações bem como para o monitoramento pós-mercado”.

“O medicamento Paracetamol, alvo da mensagem questionada, pode ser registrado como medicamento similar ou genérico. Para a concessão de registro destas classes de medicamentos, devem ser apresentados, dentre outros testes, a bioequivalência/biodisponibilidade relativa e equivalência farmacêutica”, revela a agência reguladora. “Tais testes revelam em qual quantidade e em quanto tempo um princípio ativo atinge a corrente sanguínea, depois de administrado, em comparação com o medicamento de referência, bem como para comprovar se tais medicamentos têm o mesmo princípio ativo, na mesma dosagem e forma farmacêutica que o medicamentos de referência, respectivamente.”

O órgão informou ainda que as empresas têm a obrigação de manter sistemas de vigilâncias próprios, como serviço de atendimento ao consumidor, e de atualizar a Anvisa caso algum problema seja detectado.

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