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Beneficiárias do Bolsa Família não evitaram obter emprego após ganhar curso

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Imagem: Arte/UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

11/08/2018 04h00

Uma mensagem que está circulando pelas redes sociais “denuncia” um caso envolvendo beneficiários do Bolsa Família. O texto, de autoria desconhecida, diz que 500 mulheres cearenses vinculadas ao programa do governo federal ganharam um curso de tecelagem de graça e, quando concluído, não quiseram procurar emprego.

“A demanda por mão de obra na indústria têxtil é imensa e precisa ser constantemente formada e preparada. Diante disso, o Sinditêxtil fechou um acordo com o Governo para coordenar um curso de formação de costureiras”, afirma a mensagem.

Segundo o texto, seria uma exigência do governo, para bancar o curso, que todas as participantes fizessem parte do Bolsa Família. “O governo entrou com o recurso; o SENAI com a formação das costureiras, através de um curso de 120 horas/aula; e o Sinditêxtil, com o compromisso de enviar o cadastro das formadas às inúmeras indústrias do setor, que dariam emprego às novas costureiras”, relata.

“Anotem aí: o número de contratações foi ZERO. Entenderam bem? ZERO! Enquanto ouvia o relato, até imaginei que o número poderia ser baixo, mas o fato é que não houve uma contratação sequer”, revela a corrente. “O motivo? Simples, embora triste e muito lamentável, como afirma com dó, o diretor do Sinditêxtil: todas as costureiras, por estarem incluídas no Bolsa Família, se negaram a trabalhar com carteira assinada. Para todas as 500 costureiras que fizeram o curso, o Bolsa Família é um benefício que não pode ser perdido. É para sempre. Nenhuma admite perder o subsídio sem negócio.”

FALSO: Não existiu curso para beneficiados nem procura zero

A história não procede. Tanto o Senai cearense quanto o principal sindicato ligado à indústria têxtil do estado revelam que a mensagem é antiga e volta anualmente com pequenas alterações.

“Essa história não é nova, já tem muitos anos, vem desde o governo Lula [2003-2010], cada vez com uma versão”, afirma a assessoria de comunicação do Sistema FIEC do Ceará, responsável pelo Senai. “Nós mesmos já apuramos com a indústria e ela nunca se confirmou.”

“Todo ano tem a mesma história”, confirma à reportagem a diretoria do Sinditêxtil (Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem do Ceará). O órgão também negou que tenha dado qual quer declaração sobre os beneficiários do Bolsa Família: “não precede, é tudo invenção.”

De acordo com o FIEC, eles não registram cursos com baixo preenchimento e as pessoas formadas em seus cursos geralmente procuram, sim, empregos nas respectivas áreas.

Além disso, a assessoria explicou que o Senai não oferece cursos exclusivos para beneficiários do Bolsa Família. O que é oferecido são vagas voltadas aos participantes do programa por parte do Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), como é previsto em todo o território nacional

“Essas correntes falam que as pessoas fazem o curso e depois não trabalham, mas o que temos como experiência é exatamente o contrário: está todo mundo procurando por oportunidades”, afirma a assessoria.

“Não sabemos por que, mas o foco dessas correntes, embora mudem, é sempre o Bolsa Família. Já teve com o setor de construção e agora é o têxtil, mas sempre inventam algo sobre eles”, conclui.

FALSO: O programa social não está vinculado a não trabalhar

Esta não é a primeira corrente a circular recentemente que questiona o interesse dos beneficiários do Bolsa Família. O UOL desmentiu uma fake news que atribuía à jornalista Miriam Leitão críticas aos participantes do programa. O texto argumenta que pessoas negam emprego por causa do benefício. No entanto, entre suas regras, não há vínculo algum ao desemprego, mas à renda familiar.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social, responsável pelo programa, só famílias em situação de extrema pobreza, com renda mensal de até R$ 85 por pessoa, podem ser beneficiadas.

Além disso, famílias que tenham crianças e adolescentes de 0 a 15 anos ou gestantes podem receber um benefício variável de R$ 41 por pessoa, com o máximo de cinco acréscimos por grupo.

Ou seja, hoje, o teto de uma família beneficiada não chega a R$ 300, mais do que três vezes menor do que um salário mínimo  de R$ 954, sem benefícios, no estado do Ceará.

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